terça-feira, 7 de julho de 2026

PORTUGAL NOS HIMALAIAS


Estamos em 1624.
Os jesuítas portugueses António de Andrade e Manuel Marques partiram de Agra, no norte da Índia mogol, integrando discretamente uma peregrinação hindu que seguia em direção aos Himalaias e ao Tibete.
A viagem tinha como objetivo alcançar o interior do Tibete, estabelecer contacto com os reinos himalaios e investigar a existência de antigas comunidades cristãs orientais referidas em tradições conhecidas no Oriente português.
A missão procurava igualmente abrir relações diplomáticas e religiosas com as autoridades tibetanas.
A travessia realizou-se através de regiões de altitude extrema, superiores a cinco mil metros, por caminhos cobertos de neve e gelo, ravinas profundas e trilhos estreitos abertos nas encostas das montanhas himalaias.
Nas cartas de António de Andrade são descritas passagens onde os viajantes avançavam “pé ante pé”, apoiando-se com as mãos nas rochas para evitar a queda nos precipícios.
O missionário português descreveu aquelas serras como das “mais fragosas e altas” que poderiam existir no mundo conhecido.
Os dois clérigos da Companhia de Jesus integraram discretamente a peregrinação hindu porque a viagem implicava riscos extremamente elevados. Tratava-se de regiões de circulação controlada, territórios politicamente sensíveis, fronteiras montanhosas difíceis e forte suspeição sobre estrangeiros europeus.
Eram missionários cristãos católicos inacianos atravessando espaços hinduístas, islâmicos e budistas numa das mais perigosas rotas de montanha do mundo conhecido no século XVII.
Os corajosos missionários seguiram camuflados entre os peregrinos, usando vestes locais sobre a roupa que traziam dos territórios do Império Mogol.
A subida realizou-se em condições extremas através de neve contínua, rarefação do ar e trilhos onde homens e animais caminhavam no limite da resistência física.
António de Andrade e Manuel Marques alcançaram finalmente o reino tibetano de Guge, no Tibete ocidental, cuja capital se situava em Tsaparang.
Os sacerdotes jesuítas estabeleceram contacto com o rei tibetano Tri Tashi Dragpa, que inicialmente recebeu os portugueses com prudência, mas também com curiosidade diplomática e interesse nas ligações ao mundo exterior. António de Andrade procurava autorização para fundar missão cristã, estudar a região e estabelecer relações religiosas e políticas com o reino tibetano.
As expedições portuguesas ao Tibete decorreram entre 1624 e 1626.
Manuel Marques continuou ligado à missão tibetana em Tsaparang.
António de Andrade regressou posteriormente à Goa portuguesa, então administrada pelo vice-rei Miguel de Noronha e Sousa,
IV Conde de Linhares (Linhares da Beira);
e vice-rei da Índia portuguesa entre 1629 e 1635.
O contexto de todo o sacerdócio de D. António Andrade foi no reinado filipino de Filipe III de Portugal, correspondente a Filipe IV de Castela (o último rei da união Ibérica antes da Restauração da Pátria em 1640).
Depois das expedições aos Himalaias, Dom António de Andrade assumiu cargos de elevada responsabilidade em Goa, nomeadamente como Provincial da Companhia de Jesus na Índia e reitor do Colégio de São Paulo de Goa.
Em 1634, quando preparava uma nova expedição ao Tibete, Dom António de Andrade morreu subitamente em Goa, a 19 de março, existindo suspeitas contemporâneas de envenenamento num contexto de forte tensão política e religiosa no Estado Português da Índia.
Sobre o padre Manuel Marques, existem registos missionários que o localizam em Chaparangue ainda em 1642, já após a Restauração da Independência de Portugal sob D. João IV.
Quatro séculos depois, a histórica missão portuguesa dos Himalaias continua a representar um dos mais impressionantes episódios de resistência humana e contacto entre civilizações protagonizados por portugueses.

em : Associação Pátria Amada Lusitana

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