terça-feira, 13 de outubro de 2026

O ROUBO DOS BURROS - TORRE DE DONA CHAMA


Local: Torre De Dona Chama, MIRANDELA, BRAGANÇA
Contavam os mais antigos que os mouros, noutros tempos, viviam na torre da vila e dali mandavam em todas estas terras à volta. A mulher do rei mouro, que era muito má, quando queria chamar as pessoas para que fossem trabalhar para ela, tocava uma sineta e as pessoas então diziam:
— A dona chama! A dona chama!
E destas palavras ficou o nome Torre de Dona Chama.
Um dia, o povo, farto de ser mandado pelos mouros, pediu ao rei cristão que viesse libertá-lo daquele jugo. O rei cristão veio no dia da festa da terra e resolveu pôr em prática um plano infalível. Mandou convidar o rei mouro para a cerimónia da bênção do pão, ao que este acedeu, comparecendo com toda a sua guarnição.
E, como a torre ficou então desprotegida, o rei deu ordens aos populares para que, enquanto decorriam as cerimónias, fossem lá e roubassem todos os burros aos mouros que era a única cavalaria de que dispunham.
E, com esta cavalaria, o povo ganhou a batalha, tomou o castelo e expulsou os mouros da povoação.
Fonte: PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.272

terça-feira, 29 de setembro de 2026

FRANCISCO DANIEL ROXO CAÇADOR, GUERREIRO, LENDA.


Nasceu a 1 de Fevereiro de 1933 em Mogadouro, Trás-os-Montes.

Em 1951 partiu para Moçambique. Aprendeu a selva, o rio, a montanha, o vento e o silêncio da noite africana — como poucos brancos alguma vez aprenderiam.

Foi caçador profissional durante anos. Quando a guerra chegou, em 1964, tornou-se uma coisa diferente.
Tornou-se uma lenda.

Com 30 homens — ex-guerrilheiros da Frelimo por ele capturados e reconvertidos — criou a mais eficaz unidade de contra-guerrilha do Niassa. Usava as tácticas do inimigo contra o próprio inimigo. Infiltrava-se na Tanzânia. Atacava de noite. Desaparecia na selva. 

Durante todo o tempo que actuou no Niassa, sofreu apenas 3 baixas. A Frelimo chegou a colocar um prémio avultado sobre a sua cabeça. Chamavam-lhe o “Diabo Branco”. 

Portugal condecorou-o com duas Cruzes de Guerra e uma Medalha de Serviços Distintos — sem que sequer fosse militar de carreira.

Depois do 25 de Abril e da independência de Moçambique, recusou parar e, com 41 anos, alistou-se no Batalhão 32 “Búfalos” do Exército Sul-Africano — aceitando as divisas de simples Sargento.

Em Dezembro de 1975, na Batalha da Ponte 14, no rio Nhia, ele e um punhado de portugueses derrotaram milhares de cubanos e do MPLA. Os portugueses do Batalhão 32 sofreram quatro mortos. Os Cubanos e MPLA perderam mais de 400 homens. Entre os mortos inimigos estava o comandante da força expedicionária cubana.

Foi o primeiro estrangeiro a receber a Cruz de Honra da África do Sul — a mais alta condecoração militar daquele país.

Morreu a 23 de Agosto de 1976, em Angola — quando foi socorrer um dos seus homens ferido e a sua viatura rebentou uma mina. Ficou preso debaixo do veículo. Os seus camaradas tentaram libertá-lo — era demasiado pesado.

O comandante Jan Breytenbach escreveu que Daniel Roxo acendeu um cigarro, fumou-o calmamente até ao fim — e então morreu. Sem um gemido. Sem uma queixa.

Está sepultado em Pretória.

Portugal ainda não lhe fez a homenagem que merece.

E, Mogadouro ainda não ergueu uma estátua ao seu filho mais ilustre.


Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira


terça-feira, 15 de setembro de 2026

CUCUFATE


No coração do Alentejo, em Vila de Frades, Portugal, encontram-se as impressionantes ruínas da vila romana de São Cucufate, um testemunho da grandiosidade e sofisticação da civilização romana no século IV d.C.

Este complexo rural foi originalmente construído no século I, mas atingiu seu esplendor no século IV, com uma estrutura imponente que incluía um palácio, áreas de armazenamento e termas. Os seus habitantes eram membros da elite romana, que administravam vastas terras dedicadas à agricultura e à produção de vinho.

Após o declínio do Império Romano, São Cucufate foi reutilizada por monges medievais, antes de ser abandonada. Hoje, as suas ruínas impressionantes ainda contam a história de um passado de riqueza e poder, revelando detalhes da vida quotidiana e da arquitetura romana em Portugal.













Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira  

terça-feira, 1 de setembro de 2026

PRESENÇA DOS BÓERES NO SUL DE ANGOLA


Huíla – Entre as montanhas do planalto da Huíla e as paisagens da Serra da Cela permanece viva uma das histórias mais marcantes, embora pouco conhecida, da história de Angola: a chegada e fixação dos bóeres, descendentes de colonos de origem holandesa, alemã e francesa provenientes da África Austral.
A presença desta comunidade remonta ao final do século XIX, quando centenas de famílias realizaram a célebre "Dorsland Trek" (Jornada da Sede), uma longa e difícil migração através do deserto do Kalahari. Em busca de liberdade religiosa, autonomia política e melhores condições de vida, enfrentaram anos de escassez de água, doenças e inúmeras perdas humanas e de animais.
Em 1879, os primeiros grupos atravessaram o rio Cunene e chegaram ao território angolano. Após entendimento com a administração colonial portuguesa, estabeleceram-se na região da Humpata, onde fundaram, em 1881, uma das mais importantes comunidades bóeres em Angola.

A fertilidade dos solos e o clima ameno do planalto favoreceram o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Os bóeres introduziram novas técnicas agrícolas, sistemas de irrigação e métodos de criação de gado que contribuíram para o crescimento económico da região.
Um dos maiores legados deixados por esta comunidade foi o carro bóer, uma robusta carroça de madeira puxada por juntas de bois, que durante décadas constituiu o principal meio de transporte entre o litoral e o interior de Angola. Antes da chegada do caminho-de-ferro e dos veículos motorizados, estes carros desempenharam um papel fundamental no escoamento de produtos agrícolas, borracha, cera e mercadorias, ligando Moçâmedes, Benguela, Huíla, Bié e Moxico.
Os bóeres participaram igualmente na abertura e manutenção de caminhos e rotas comerciais, facilitando o desenvolvimento económico do sul do país numa época em que as infraestruturas eram praticamente inexistentes.
Apesar das suas contribuições, a convivência com a administração colonial portuguesa nem sempre foi pacífica. Divergências relacionadas com impostos, educação, língua e organização comunitária levaram a sucessivos conflitos. A comunidade procurava preservar a sua identidade cultural, religiosa e linguística, mantendo escolas próprias e uma forte coesão social.
Ao longo do século XX, muitos bóeres decidiram abandonar Angola. Em 1928 ocorreu um dos maiores movimentos de saída, com numerosas famílias a estabelecerem-se no então Sudoeste Africano, actual Namíbia. Nas décadas seguintes, o número de residentes continuou a diminuir, culminando praticamente com o desaparecimento da comunidade organizada antes da independência de Angola, em 1975.
Actualmente, um dos principais testemunhos dessa presença histórica encontra-se no Cemitério dos Bóeres, localizado na Humpata, onde repousam muitos dos pioneiros daquela migração. O local é considerado um importante património histórico e continua a despertar o interesse de investigadores, historiadores e visitantes nacionais e estrangeiros.
Além do cemitério, persistem outros vestígios da passagem desta comunidade, como antigos canais de irrigação, tradições agrícolas e referências culturais que permanecem integradas na memória colectiva da Huíla.
A história dos bóeres em Angola representa um capítulo importante da diversidade cultural do país e demonstra como diferentes povos contribuíram, ao longo do tempo, para o desenvolvimento económico e social do planalto da Huíla, enriquecendo o património histórico nacional.


Fontes: Arquivo Nacional de Angola; Universidade de Pretória (estudos sobre o Dorsland Trek); Museu Regional da Huíla; Governo Provincial da Huíla; Visite Huíla; trabalhos de historiadores sobre a migração bóer para Angola, incluindo George McCall Theal e Hermann Pössinger.
Em: REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões

terça-feira, 18 de agosto de 2026

AS CAMADAS DA TERRA ESTRUTURA INTERNA DO NOSSO PLANETA

 

Sob os nossos pés existe um universo invisível

A Terra parece sólida e silenciosa na superfície, mas no seu interior existe uma estrutura colossal formada por camadas gigantescas de rocha, metal e calor extremo. Tudo o que conhecemos, oceanos, cidades, florestas e montanhas, repousa sobre uma fina película comparada ao tamanho real do planeta.

A primeira camada é a Crosta Continental, onde vivem os seres humanos. Forma os continentes e possui espessura média entre 20 e 70 km. É composta principalmente por rochas graníticas menos densas.

Já sob os oceanos existe a Crosta Oceânica, mais fina e densa, formada por rochas basálticas, com espessura média entre 5 e 10 km.

Mesmo sendo a parte mais superficial do planeta, essa “casca” representa menos de 1% do volume total da Terra.

Logo abaixo começa o Manto Superior, que se estende aproximadamente até 660 km de profundidade. Apesar das temperaturas extremamente altas, grande parte dessa região permanece sólida devido à pressão gigantesca.

É composto principalmente por silicatos ricos em magnésio e ferro. Lentamente, essas rochas se deformam e se movimentam ao longo de milhões de anos.

Dentro do manto está uma das regiões mais fascinantes da Terra: a Astenosfera. Essa camada parcialmente pastosa encontra-se aproximadamente entre 100 e 660 km de profundidade. É nela que ocorrem as correntes de convecção que movem lentamente as placas tectónicas.

Os continentes literalmente “flutuam” sobre essa região, deslocando-se poucos centímetros por ano. Foi esse movimento que separou continentes inteiros ao longo da história do planeta.

Mais abaixo surge a Mesosfera, também chamada de Manto Inferior, indo de cerca de 660 km até 2.900 km de profundidade.

A pressão aqui é tão intensa que as rochas assumem comportamentos completamente diferentes dos observados na superfície. Essa camada representa a maior parte do volume interno da Terra e funciona como um gigantesco reservatório de calor.

Em seguida aparece o Núcleo Externo, localizado entre aproximadamente 2.900 km e 5.150 km de profundidade.

Diferente das camadas anteriores, é formado principalmente por ferro e níquel líquidos. Esse oceano metálico em constante movimento gera o campo magnético da Terra, o escudo invisível que protege o planeta contra partículas solares e radiações perigosas vindas do espaço.

E no centro absoluto da Terra encontra-se o Núcleo Interno, uma esfera sólida de ferro e níquel situado entre 5.150 km e 6.371 km de profundidade.

Mesmo com temperaturas que podem ultrapassar 5.000 °C, semelhantes às da superfície do Sol, a pressão é tão extrema que o material permanece sólido. Cientistas acreditam que essa região cresça lentamente há bilhões de anos à medida que o planeta esfria.

E existe uma curiosidade impressionante: a humanidade jamais chegou perto do núcleo terrestre. A perfuração mais profunda já feita foi o Poço Super profundo de Kola, na Rússia, que atingiu cerca de 12,2 km de profundidade. Parece muito… mas isso representa menos de 0,2% da distância até o centro da Terra. Em comparação ao tamanho do planeta, foi apenas um pequeno arranhão na crosta.

Outra descoberta surpreendente é que sabemos mais sobre a superfície da Lua e de Marte do que sobre o interior profundo da Terra. Tudo o que conhecemos das camadas internas foi descoberto principalmente através da análise das ondas sísmicas geradas pelos terramotos, que atravessam o planeta de formas diferentes conforme o material encontrado.

A Terra não é apenas um planeta. É uma máquina viva, gigantesca e dinâmica, funcionando silenciosamente há cerca de 4,5 bilhões de anos.

Sob os nossos pés existe um mundo ardente e misterioso que continua a guardar segredos que talvez a humanidade ainda leve séculos para compreender completamente.



Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira  


terça-feira, 4 de agosto de 2026

OS SAN – HABITANTES MAIS ANTIGOS DA ÁFRICA AUSTRAL


Os San, também conhecidos como Basarwa ou Khwe, são os habitantes mais antigos da África Austral.

O seu lar era o deserto do Kalahari, actualmente dividido entre Angola, África do Sul, Botswana e Namíbia.

Possuem uma cultura única e são conhecedores de muitos aspectos, desde as suas pinturas rupestres, métodos de caça, habilidades de sobrevivência, conhecimento de plantas medicinais, comestíveis e tóxicas, música, dança e crenças.

Os San inclinam depois de ajoelhados os ouvidos ao chão e conseguem determinar se a pessoa que vem e ainda não foi vista se é grávida ou uma pessoa em estado normal. É muita sabedoria!...

Antigos indígenas sul-africanos descobriram fósseis antes da ciência e podem ter adorado criaturas extintas

Um painel rupestre pintado pelos San há 200 anos retratam um animal extinto há milhões de anos, o que sugere a existência de conhecimento paleontológico que foi incorporado na crença deste povo.



Nota: Composição cativa da fonte “África Greatness”, por V. Oliveira

terça-feira, 21 de julho de 2026

A PRINCESA PERDIDA NA SAVANA


Nas vastas planícies de Angola, onde os imbondeiros vigiam a paisagem há centenas de anos, conta-se uma antiga lenda sobre uma princesa desaparecida e uma árvore que se tornou sua guardiã.
É uma história de coragem, destino e esperança.
Dizem que, há muito tempo, existia um poderoso reino situado entre rios e montanhas. O soba governava com justiça e o povo vivia em paz. A sua única filha, a princesa N'Gola, era admirada pela inteligência e bondade.
Ao contrário de outras jovens da corte, N'Gola gostava de caminhar pela savana. Conversava com os pastores, ajudava os mais velhos e passava longas horas sentada à sombra dos imbondeiros.
Os anciãos diziam que a natureza a reconhecia como filha.
Certa manhã, durante uma viagem para visitar uma aldeia distante, uma tempestade inesperada cobriu a savana. O vento levantou nuvens de poeira e os membros da comitiva perderam-se uns dos outros.
Quando a tempestade terminou, a princesa tinha desaparecido.
Durante dias, guerreiros percorreram rios, florestas e montanhas.
Nada.
Semanas transformaram-se em meses.
Nada.
O reino mergulhou na tristeza.
Mas uma velha curandeira afirmou ter recebido uma visão.
Segundo ela, a princesa estava viva e tinha sido protegida pelo mais antigo dos imbondeiros da região.
Os guerreiros seguiram a indicação.
Depois de uma longa viagem, encontraram uma árvore gigantesca no centro da savana. O tronco era tão vasto que parecia uma fortaleza.
Ao aproximarem-se, ouviram uma voz.
Era N'Gola.
A princesa estava abrigada numa cavidade natural do imbondeiro, onde sobrevivera graças à água acumulada no tronco e aos frutos que encontrava nas redondezas.
Quando regressou ao reino, contou algo extraordinário.
Disse que, durante o tempo em que esteve desaparecida, ouvira histórias vindas do interior da árvore. Histórias dos povos antigos, dos animais da savana e dos antepassados que haviam construído o reino.
Ninguém soube explicar o que realmente aconteceu.
Mas desde então aquele imbondeiro passou a ser conhecido como o Guardião da Princesa.
A lenda afirma que, sempre que alguém se perde na vida — não apenas nos caminhos da terra, mas também nos caminhos do coração — pode encontrar orientação junto de um velho imbondeiro.
Porque algumas árvores não mostram apenas o caminho de regresso.
Mostram também quem realmente somos.
Hoje, a história da Princesa Perdida da Savana continua a ser contada em várias versões, lembrando que a natureza, tantas vezes vista apenas como paisagem, também ocupa um lugar central na memória e na identidade dos povos angolanos.

Fontes:
– Tradição oral angolana
– Narrativas populares sobre o baobá
– Estudos sobre simbolismo da árvore da vida em Angola
REAT, Rádio Estudantil Angolana de Transmissões.