terça-feira, 12 de maio de 2026

PÊRO DA COVILHÃ


 

Com cerca de 18 anos, a desenvoltura de Pêro da Covilhã impressionou um espanhol que no momento visitava a Covilhã para comprar tecidos e, teve em mente convidá-lo para servir o seu amo, D. Juan de Guzmán, irmão do Duque de Medina-Sidonia, um dos mais conceituados fidalgos de Sevilha.

E Pêro aceita a proposta…partindo para Sevilha, onde lhe fora atribuído o papel de espadachim.

Surpreendido com a estatura de Pêro da Covilhã, D. Juan de Gusman convida-o a participar nas embarcações do seu irmão, o Duque, conhecido também como o Pirata Espanhol. Mas Pêro recusa a oferta e, em 1474, acompanha D. Juan a Lisboa para um encontro com D. Afonso V de Portugal.

D. Afonso V interessou-se por Pêro da Covilhã conhecendo o seu domínio de línguas, prioritariamente a língua árabe. E D. Juan cede a el-rei os serviços do português. É assim que Pêro da Covilhã, com 24 anos, é admitido como moço de esporas de D. Afonso V, e nomeado escudeiro, com direito a armas e cavalo.

Em 1476 acompanha D. Afonso V na batalha de Toro, na tentativa fracassada de D. João de reclamar o trono de Castela, já que era cunhado de Henrique IV de Castela. Mais tarde, acompanhou D. Afonso na jornada a França para pedir auxílio ao rei Luís XI na luta pelo trono de Castela, que seria rejeitado.

Entretanto, D. Afonso V abdica do trono, para D. João II.

E assim D. João II, para estabelecer relações diplomáticas com a suposta "Terra do Preste João”, convida Pêro da Covilhã a partir por terra até à Etiópia prosseguindo a rota em direcção à Índia.

MISSÃO NO ORIENTE



Em 1487, D. João II envia-o juntamente com Afonso de Paiva em busca de notícias do mítico reino do Preste João e, da Índia. E disfarçados de mercadores e treinados por cosmógrafos régios e pelo rabino de Beja que lhes terá indicado as portas da cidadela, no Cairo, partem a cavalo a 7 de Maio de Santarém  (onde estava a Corte), rumo a Valência.

Atravessam o sul da Península Ibérica até Barcelona, onde chegam a 14 de Junho. Daí, uma nau levou-os até Nápoles em dez dias e, daqui até ao arquipélago grego noutros dez dias. Desembarcam na ilha de Rodes, que pertencia à Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, repousando em casa de frades portugueses.

Rodes seria a última terra cristã que pisariam. Daí, rumaram para Alexandria, no Egipto, cuja religião predominante era o islamismo, onde compraram algumas mercadorias para o seu disfarce de mercadores. Depressa adoeceram com as chamadas "febres do Nilo", quase morrendo. O naíbe, lugar-tenente do Sultão, toma-lhes as mercadorias dando-os por mortos e sem descendentes. Porém, ambos recuperam e o naíbe restitui-lhes o valor das mercadorias. A partir daí tentam reproduzir o trajecto das especiarias no sentido oposto: rumo a Roseta de cavalo e de barco ao Cairo. Juntam-se a uma caravana que, percorrendo o deserto pela margem oriental do Mar Vermelho, vai cruzar a Arábia, rumo a Adem, às portas do Oceano Índico; passam pelo Suez, Tor, o deserto do Sinai, Medina e Meca, a cidade sagrada do Islão, onde tiveram que fazer penitência e rezar ao profeta Maomé, para manter o disfarce.

Chegam a Adem já no ano de 1488 e aí se separam com reencontro combinado no Cairo, junto à porta da cidadela, durante o anoitecer de um dos primeiros noventa dias de 1491; Afonso de Paiva ruma à Etiópia em busca do Preste João, e Pêro da Covilhã vai para a Índia.

Pêro chega em Novembro de 1488 a Calecute, um dos pequenos reinos da Índia actual. Aí terá conhecido um mercador que lhe terá explicado o percurso das especiarias; terá indicado a existência do Ceilão, de onde vinha a canela, e da Malásia, a noz-moscada, e o papel de Calecute em todo o processo. Era aqui que afluíam as especiarias, prontas para embarcar rumo ao Mar Vermelho (e, posteriormente, para Veneza).

Na sede de melhor saber, Pêro visita Cananor, Goa e Ormuz, na costa do Malabar, confirmando que o movimento comercial era, de facto, inferior ao de Calecute.

Em Dezembro de 1489 parte Pêro da Covilhã de Ormuz rumo à costa oriental de África. Visita Melinde, Quíloa, Moçambique e, finalmente, Sofala, registando os entrepostos comerciais dos mouros. Pêro da Covilhã regista, assim, que uma vez dobrado o fim da África (mais tarde designado do Cabo das Tormentas), bastará atingir Sofala ou Melinde e facilmente se alcançaria Calecute. Será com base nesta anotação que Vasco da Gama decidiu atravessar o Oceano Índico directamente para Calecute, na sua pioneira expedição marítima à Índia.

A 30 de Janeiro de 1491, Pêro da Covilhã dirige-se às portas da cidadela do Cairo, conforme combinado e, em vez de Afonso de Paiva, encontra o Rabi Abraão (o rabino de Beja) e um outro judeu português, José de Lamego, que lhes comunicam que Afonso de Paiva teria falecido ali no princípio do mês, mas que falecera de peste sem poder contar as suas viagens ou aventuras, da notícia do nascimento do seu filho, que Catarina baptizou de Afonso, em homenagem ao rei, e do feito de Bartolomeu Dias, que tinha dobrado o Cabo das Tormentas, agora designado Cabo da Boa Esperança.

Mas el-Rei D. João II teria pedido ao Rabi Abraão que fosse confirmar a importância de Ormuz, segundo relatos de José Lamego, que desconhecia que importante era Calecute, e não Ormuz.

Assim, Pêro redige o relatório para o rei, que seria entregue por José Lamego, e parte para Ormuz com o Rabi. Aí, Pêro da Covilhã deixa o Rabi e regressa a Adem, para saber notícias do Preste João, já que Afonso de Paiva não as pôde comunicar. Daí toma um barco até Zeilá, mas a sul, já na costa da Etiópia.

Etiópia             

Rico e bem acolhido pelo imperador Alexandre, descendente do Preste João, ali casou e teve filhos, vindo a morrer muitos anos depois. Constatou que afinal o mítico reino não era mais senão um pobre povo que tentava evitar ser esmagado pelos vizinhos muçulmanos — não poderia valer Portugal de qualquer ajuda, mas sim a eles que teriam que ser ajudados na luta contra os infiéis.

Impedindo de sair por Nahu, irmão e sucessor de Alexandre, que entretanto morrera inesperadamente, e que alegava o costume de não deixar sair os forasteiros que entrassem no reino, recebe terras do soberano e aí se fixa como senhor feudal, casando novamente e de quem teria numerosa descendência.

Com a morte de Nahu, em 1508, Pêro da Covilhã é mantido como conselheiro régio da nova rainha Helena. É por sua indicação que a rainha envia o embaixador Mateus a Lisboa, acompanhando dois frades portugueses que ali apareceram, e de quem viria Pêro da Covilhã a saber da morte de D. João II, da ascensão de D. Manuel I, e dos sucessos de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

Recebeu, entretanto, a visita de alguns portugueses a quem terá dado notícias importantes. É, em 1521, encontrado pelo embaixador D. Rodrigo de Lima. O relato das suas viagens foi enviado ao padre Francisco Álvares pelo próprio Pêro da Covilhã, que o publicou na Verdadeira Informação das Terras do Peste João das Índias, que veio a ser editada em Lisboa, em 1540.

 

Nota: Pesquisa feita por V. Oliveira


terça-feira, 28 de abril de 2026

ROSTOS QUE FAZEM O MOXICO LESTE - CONHEÇA ANABELA NGAMBO “RAINHA NYAKATOLO”



No dia do seu aniversário, celebramos a vida e o percurso de uma mulher cuja história se confunde com a própria história de resistência, cultura e identidade do povo do antigo Alto-Zambeze.

No coração da terra fértil do Moxico Leste, onde os rios contam histórias antigas e as tradições caminham de mãos dadas com a memória dos antepassados, ergue-se a figura digna e respeitada de Anabela Ngambo Kaumba, hoje conhecida como Rainha Nyakatolo - Ngambo II.
Filha de Jaime Kaumba e Laura Kainda, nasceu no dia 13 de Março de 1945, na vila histórica de Cazombo, no então município do Alto-Zambeze. Hoje, aos 81 anos, permanece solteira e reside em Nana Candundo, no bairro Nyakatolo, lugar onde a tradição se mantém viva.
A sua vida é um testemunho de coragem, sacrifício e compromisso com Angola.
No dia 5 de Agosto de 1962, com apenas 17 anos de idade, Anabela Ngambo ingressou nas fileiras do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, na Zona A, comuna de Lumbala-Kaquengue, acompanhando os seus pais no ideal de libertação da pátria.
Mas escolher a liberdade, naquele tempo, significava enfrentar o peso da perseguição colonial.
Em 1963, no momento em que as autoridades da administração colonial portuguesa descobriram o envolvimento da sua família com o movimento revolucionário, a repressão tornou-se dura. A família passou a ser constantemente vigiada e os seus passos controlados. O seu pai e os seus irmãos mais velhos foram presos pela PIDE-DGS e levados para as cadeias do Luau, acusados de colaborar com os movimentos de libertação. Mesmo assim, o espírito de resistência nunca se apagou.
Em 1964, depois de sucessivas perseguições, Anabela Ngambo e o seu irmão João Kayombo foram obrigados a refugiar-se na República da Zâmbia. Ali viveram primeiro na província de Kitwe-Chimbuluma e, posteriormente, na localidade de Kalombo. Foi exactamente no exílio que o compromisso com Angola se fortaleceu ainda mais, envolvendo-se directamente na causa através do movimento político.
Em 1974, com os acordos que anunciavam a retirada do regime colonial português e preparavam o caminho para a Independência de Angola, Anabela Ngambo foi seleccionada para integrar a primeira coluna de regresso ao país.
O grupo era comandado inicialmente por Kakunga, mais tarde substituído por Manhinga. Xieto exercia a função de Chefe do Estado-Maior, Rui de Matos era responsável pelas finanças e Jika desempenhava o papel de comissário do grupo.
Apesar do ambiente ainda instável e do conflito que viria a marcar o período pós-independência, o regresso simbolizava esperança, revelando um verdadeiro amor por estas terras de Angola.
No dia 7 de Fevereiro de 1975, Anabela Ngambo participou na recepção da primeira visita do Dr. António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, à vila de Cazombo.
Rainha Nyakatolo Chissengo
Na ocasião, o Presidente manifestou profunda gratidão à Rainha Nyakatolo Chissengo e ao povo do então Alto-Zambeze, pelo apoio moral e logístico prestado aos guerrilheiros durante a luta de libertação nacional.
Anabela também participou na recepção da segunda visita presidencial, realizada a 5 de Setembro de 1978.
Em 13 de Novembro de 1983, com a então ocupação do município do então Alto-Zambeze durante o conflito armado, Anabela e muitos outros habitantes foram novamente obrigados a refugiar-se na Zâmbia, onde permaneceu até ao cessar-fogo de 1992.
Apesar do tempo e dos momentos peculiares, a tradição continuou a guiar o destino da família Nyakatolo, como verdadeiros seguidores da família real descendente de Chinhama.
Em 2011, após o falecimento da regedora Mahongo Kakengue, foi novamente chamada pela tradição e pela confiança do povo para assumir o título de Regedora de Kakengue, função que exerceu durante doze anos.
Rainha Nyakatolo Chilombo
Com a morte da sua irmã, Rainha Nyakatolo Lurdes Chilombo, no dia 15 de Julho de 2023, a linhagem ancestral voltou a reunir-se. Seguindo os costumes e a sabedoria da tradição, a família escolheu Anabela Ngambo para assumir o trono Nyakatolo.
Assim, no dia 9 de Setembro de 2024, foi oficialmente entronizada como a 6ª Rainha Nyakatolo - Ngambo II.
Uma mulher que carrega no olhar a memória dos seus antepassados e, nos ombros, a responsabilidade de preservar a identidade cultural do seu povo.
As circunstâncias da luta de libertação impediram que prosseguisse os estudos. A sua formação escolar terminou na 3ª classe, na Escola Evangélica de Sakamuengo, ainda no período colonial.
Desde antes da independência até aos dias actuais, Anabela Ngambo tem trabalhado incansavelmente pelo desenvolvimento de Angola, sobretudo na preservação, valorização e divulgação dos valores culturais e identitários do povo angolano.
Foi também uma voz activa na defesa da identidade histórica da nova província criada no processo de Divisão Político-Administrativa do país.
A vida de Rainha Nyakatolo – Anabela Ngambo é mais do que uma biografia. É um caminho feito de luta, tradição, resistência e liderança.
Uma mulher que atravessou a guerra, o exílio e as mudanças do tempo, sem nunca abandonar o compromisso com o seu povo.
Hoje, no silêncio respeitoso das terras do Moxico Leste, o seu nome ecoa como símbolo de dignidade, sabedoria e continuidade da cultura ancestral.
Neste mês dedicado às mulheres e, de forma especial, no dia do seu aniversário, o Governo Provincial do Moxico Leste felicita a soberana do povo Luvale, bem como as demais mulheres da província, manifestando profunda satisfação e empenho para que continuem a contribuir cada vez mais para o crescimento e desenvolvimento da jovem província.

Em: GOVERNO PROVINCIAL DO MOXICO LESTE

terça-feira, 14 de abril de 2026

SOLDADO MILHÕES, O LAVRADOR TRANSMONTANO QUE ENFRENTOU UM EXÉRCITO


Em Abril de 1918, quando a Primeira Guerra Mundial arrastava a Europa para um dos seus capítulos mais sombrios, um jovem soldado português, franzino e analfabeto, tornou-se protagonista de um dos episódios mais extraordinários da história militar nacional.

Aníbal Augusto Milhais (1895 - 1970), natural de Valongo de Milhais (Murça), transformou‑se, numa única madrugada, no herói que os portugueses apelidariam para sempre de "Soldado Milhões" — “porque valia milhões”, como diria o comandante que o distinguiu oficialmente após o combate.

Milhais era um trabalhador agrícola habituado à dureza do campo transmontano. Alistou‑se no Exército em 1915 e, dois anos depois, integrou o Corpo Expedicionário Português (CEP), sendo destacado para a frente de batalha na Flandres, como membro da 2.ª Divisão de Infantaria. A participação portuguesa na guerra era marcada por falta de recursos, cansaço extremo e escassos meios logísticos, num sector onde se acumulavam baixas muito antes de qualquer grande batalha.

La Lys: o dia em que Milhais mudou o destino de centenas

A 9 de Abril de 1918, os alemães lançaram a ofensiva da Primavera — conhecida entre os portugueses como Batalha de La Lys — esmagando posições aliadas na região de Estaires. O CEP, que deveria ter sido substituído nessa mesma manhã, enfrentou sozinho o impacto inicial da ofensiva. Em poucas horas, o contingente português sofreu quase 14 mil baixas entre mortos, feridos e prisioneiros, num dos maiores desastres militares da participação lusa no conflito.

Foi nesse cenário de colapso generalizado que Aníbal Milhais recusou abandonar a sua posição. Armado com uma metralhadora Lewis, de 12,7 kg, que manejava com rara precisão, manteve fogo contínuo sobre duas colunas alemãs, assegurando a retirada de centenas de soldados portugueses e escoceses. A manobra, registada mais tarde pelos relatórios aliados, foi decisiva para evitar um massacre ainda maior.

Segundo os arquivos militares, Milhais deslocava‑se entre trincheiras, utilizando munições recolhidas de soldados mortos para prolongar o combate e criar a ilusão de que várias posições continuavam defendidas, quando na verdade combatia completamente sozinho.

Quatro dias perdidos entre fogo, lama e cadáveres

Quando já não tinha munições, Milhais retirou‑se, iniciando um percurso errante de quatro dias pelos campos devastados da Flandres. Alimentou‑se apenas das castanhas piladas que levava nos bolsos, bebeu água imprópria em valas e ribeiros e refugiou‑se entre cadáveres de animais para fugir às patrulhas alemãs. Durante esse período, ainda salvou um major médico escocês e ajudou civis que tentavam escapar de uma casa em chamas, factos confirmados mais tarde por testemunhos aliados.

Quando regressou finalmente ao acampamento português, sujo, esgotado e quase irreconhecível, muitos acreditavam estar perante um fantasma. Fora dado como morto dias antes.

Da glória militar ao regresso à terra pobre

O ato de coragem valeu‑lhe a Ordem da Torre e Espada, a mais alta distinção militar portuguesa, entregue no próprio campo de batalha — caso único na história da condecoração. Recebeu também distinções estrangeiras, incluindo a Legião de Honra francesa.

Mas a vida do herói não seguiu um caminho de glória permanente. Regressado a Valongo de Milhais após a guerra, encontrou a mesma pobreza e os mesmos campos áridos da infância. Casou, teve vários filhos e tentou emigrar para o Brasil em 1928. Os portugueses lá residentes, ao perceberem que o herói nacional vivia na miséria, angariaram fundos para o trazer de volta, considerando indigno que alguém com o seu legado fosse obrigado a sobreviver como emigrante pobre.

Em 1924, a povoação onde nascera passou oficialmente a chamar‑se Valongo de Milhais, em sua homenagem. O soldado viveu o resto da vida de forma simples, trabalhando a terra, sem nunca se vangloriar dos feitos que o tornaram lendário.

Milhais morreu no dia 3 de Junho de 1970, com 74 anos, na aldeia onde nascera. A sua história, porém, sobreviveu muito além da sua própria voz.

O herói que o país não esquece

O Soldado Milhões representou o que a Primeira Guerra raramente permitiu mostrar: a coragem individual num conflito monstruoso que esmagava vidas sem distinção. O seu episódio tornou‑se símbolo nacional e objecto de investigações, biografias, reportagens e de filmes — entre eles, a obra cinematográfica de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa: "Soldado Milhões" (2018), que reaproximou o público da figura que o país nunca deixou de reverenciar.

Entre os milhares de portugueses enviados para uma guerra distante, Aníbal Milhais destacou‑se não pela força física ou pela instrução, mas pela coragem incomum, pela resistência e pelo altruísmo que salvou vidas quando tudo parecia perdido

Pequeno em estatura, gigante em bravura: o soldado que valia milhões continua a ocupar um lugar único na memória de Portugal.

 


Nota: Pesquisa e composição feita por V. Oliveira

 

 


terça-feira, 31 de março de 2026

ANTÓNIA RODRIGUES – A JOANA D´ARC PORTUGUESA


Antónia Rodrigues, nascida a 5 de Janeiro de 1572, foi uma figura aveirense cuja vida viria a destacar-se pela coragem e pelos feitos militares alcançados no Norte de África.

O documento partilhado aqui corresponde ao seu assento de batismo, lavrado na antiga paróquia de São Miguel e preservado no acervo do Arquivo Distrital de Aveiro.

Filha de Simão Rodrigues e Leonor Dias, nasceu numa família humilde e ligada ao mar e, reza a lenda que, com cerca de 13 anos, decidiu cortar o cabelo, vestir-se como rapaz e adotar o nome António Rodrigues, embarcando como grumete rumo a Mazagão, então praça portuguesa em território marroquino.


A sua bravura rapidamente se tornou notória. Integrou a infantaria local, combateu em várias ações militares e destacou-se pela destreza no manejo das armas. A rapidez com que ganhou reconhecimento levou-a à cavalaria, onde comandou ataques e frustrou investidas inimigas. A reputação que construiu valeu-lhe os epítetos de “Cavaleira Portuguesa”, “Amazona de Mazagão” e “Terror dos Mouros”, tornando-se uma das figuras femininas mais singulares da história militar portuguesa.


A revelação da sua real identidade, a qual se viu forçada após vários anos ao serviço, apenas reforçou a admiração que lhe era dedicada. Terá casado com nobre cavaleiro e, retornada ao país de origem, viu os seus serviços reconhecidos pela Coroa, recebendo mercês e distinções.


Pouco se conhece sobre os seus últimos anos de vida, mas a memória da sua determinação permanece viva, enriquecida pela confirmação documental da sua data de nascimento, identificada em 2020 pelo historiador Francisco Messias.

Registos paroquiais para genealogia – Torre do Tombo


Nota: Pesquisa ocasional feita nos arquivos da Torre do Tombo por, Vítor Oliveira


terça-feira, 17 de março de 2026

A MULHER QUE ESPEROU NA ESTAÇÃO ATÉ O TEMPO SE RENDER


Rússia, 1917 – 1932

Não importavam o frio, a guerra, a fome ou os rumores. Todas as manhãs, ela caminhava até a estação de uma pequena cidade ao sul de Moscovo, sentava-se no mesmo banco de madeira e fixava os olhos nos trilhos — como se eles ainda guardassem uma promessa intacta. 
No início, diziam que ela esperava o marido. 
E diziam a verdade. 
Ivan fora enviado para a guerra em 1917, quando a guerra ainda parecia distante, quase gloriosa. Prometeu voltar em breve. Prometeu escrever. Prometeu que a separação seria curta. 
Anna acreditou em cada palavra. 
Nos primeiros meses, as cartas chegaram. Depois, o silêncio. Mais tarde, listas de desaparecidos. Ninguém confirmou a morte. Ninguém confirmou a sobrevivência. Ivan ficou preso no lugar mais cruel que existe: a incerteza.

“Se não há corpo, há esperança”, disseram-lhe.
E Anna agarrou-se a isso como quem se agarra a uma tábua no meio do naufrágio.
Quando a guerra terminou, muitos voltaram. Homens magros, quebrados, com olhos que pareciam ter visto demais. Ivan não estava entre eles. Os vizinhos começaram a aconselhá-la: que refizesse a vida, que ainda era jovem, que esperar tanto tempo era inútil.
“O tempo não traz ninguém de volta”, diziam. 
Mas Anna não esperava pelo tempo. 
Esperava por Ivan. 
Os anos passaram. Veio a revolução. O país mudou. Mudaram os nomes, as placas, o medo. Anna continuou a ir à estação.

Havia dias sem trens. Outros, com vagões cheios de estranhos. Ela examinava cada rosto sem ansiedade, sem pressa — como alguém que sabe exactamente quem procura.

Com o tempo, deixou de se arrumar. Depois, deixou de se importar com os olhares. Tornou-se parte da paisagem. “A mulher da estação”, passaram a chamá-la. 
Crianças cresceram vendo-a ali. Adultos desviavam o olhar, desconfortáveis. Ela lembrava algo que ninguém queria encarar por muito tempo: que nem tudo se resolve, que nem tudo termina. 
Em 1925, um funcionário local sugeriu que ela parasse. 
“Não é saudável”, disse. “O Estado não reconhece esse tipo de espera.” 
Anna olhou para ele sem raiva. 
“O Estado não se casou com isso”, respondeu. 
E continuou indo. 
O corpo envelheceu mais rápido que a convicção. Os passos ficaram lentos. Sentar-se exigia esforço. Ainda assim, não faltou um único dia.

Num inverno especialmente rigoroso, ela adoeceu e passou semanas de cama. Quando voltou à estação, encontrou o banco ocupado. Não reclamou. Ficou em pé. 
O homem levantou-se sem que ela pedisse. 
Em 4 de Maio de 1932, chegou um trem diferente. Mais curto. Mais silencioso. Poucos passageiros desceram. Entre eles, um homem magro demais, cabelos prematuramente brancos, apoiado numa bengala improvisada. 
Anna conheceu-o imediatamente. 
Ela não correu. 
Não gritou. 
Não hesitou. 
Levantou-se e caminhou até ele. 
Ivan demorou alguns segundos para reconhecê-la. Quinze anos transformam qualquer rosto. Mas, quando compreendeu, deixou a bengala cair. 
— Pensei que você não viria — murmurou. 
Anna balançou a cabeça, com calma. 
— Pensei que você demoraria um pouco. 
Ivan passara anos num campo de prisioneiros de guerra. Não pôde escrever. Não pôde voltar. Não morreu — mas também não viveu de verdade. 
Ninguém o procurou. 
Excepto ela.


Viveram juntos apenas mais três anos. Pouco tempo, para alguns. Suficiente, para Anna. 
Quando Ivan morreu, alguns vizinhos disseram que ela desperdiçara a vida esperando. 
Anna nunca concordou. 
— Eu não esperei — disse. — Eu escolhi. 
E talvez essa seja a parte mais perturbadora da sua história: 
Às vezes as pessoas não ficam porque não podem ir embora, mas porque escolhem amar sem garantias.

Anna Ivanovna morreu sabendo algo que estatísticas e conselhos bem-intencionados jamais capturam: 
Que o tempo pode desistir — mas nem sempre tem a última palavra!...


Nota: Texto pesquisado e trabalhado por V. Oliveira

 

 

 


terça-feira, 3 de março de 2026

CROMELEQUE DOS ALMENDRES


Conhecer Portugal por dentro…

Sugiro uma visita ao Alto Alentejo, região de Évora, onde se encontram inúmeros vestígios de monumentos megalíticos. E para uma primeira abordagem, porque não…visitar o Cromeleque dos Almendres, situado na Serra de Monfurado, entre Montemor-O-Novo e Évora!

É um monumento megalítico constituído por dois conjuntos de menires dispostos em círculos concêntricos, com diferentes formas e dimensões, alguns cilíndricos, outros esféricos ou de aspecto estelar.

Estes menires formaram dois recintos erguidos em épocas diferentes, geminados e orientados segundo os equinócios. O mais antigo definia-se por dois ou três círculos concêntricos de monólitos de pequena dimensão, ao qual se associou mais tarde, no lado ocidental, um outro composto por duas elipses concêntricas com menires de grandes dimensões.


Mais tardiamente ambas as estruturas sofreram assinaláveis modificações, tendo o recinto inicial sido transformado numa espécie de átrio que orientaria e solenizaria os rituais mágico-religiosos ali praticados.

Um dos menires (o 57) tem insculpidas 13 representações de báculos. O menir seguinte (o 58), situado na extremidade norte do eixo mais pequeno do recinto, mostra-nos 3 imagens solares radiadas.

Assim, este conjunto megalítico dos Almendres estaria ligado às observações astronómicas e previsões astrológicas, como também a cultos ligados à fecundidade. Estes cultos são sugeridos pelo falomorfismo de alguns dos menires presentes. O recinto terá sido desactivado durante a época do calcolítico.


Nota: Este aglomerado tem mais menires e é mais velho do que o célebre Stonehenge, em Inglaterra!...

Texto trabalhado por V. Oliveira


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A ESTÁTUA DA ILHA DO CORVO


A Ilha do Corvo, nos Açores, foi descoberta (ou potencialmente redescoberta), pelos Portugueses por volta do ano de 1452.

Quando os portugueses lá chegaram não encontraram vivalma na ilha, e supuseram, de uma forma muito natural, que nunca ninguém lá tivesse vivido. Até que, com o passar dos anos, foi encontrada uma estátua no local.

Damião de Góis nunca a viu na primeira pessoa, mas dá-nos alguma informação sobre ela:

Representava um homem a cavalo, com o cabelo descoberto, e que, com o indicador direito, apontava para oeste. Por baixo da estátua estava uma inscrição, já muito apagada, em caracteres que não eram latinos e que ninguém conseguiu compreender.

A estátua, e a respectiva base, estavam colocadas num local de muito difícil acesso, só tornado acessível ao fazer descer homens com cordas para o local.


O Rei Dom Manuel (monarca entre 1495 e 1521) mandou fazer uma imagem da estátua. Posteriormente, o mesmo rei mandou também removê-la do local, presumivelmente para a trazer para Portugal, mas ela já estava muito danificada e partiu-se em muitos pedaços. Os seus restos foram trazidos para o país, entregues ao rei, e após esse momento desapareceram da história.

A acreditar no que foi reportado no século XVI, já alguém teria passado pela ilha antes da sua (re)descoberta pelos Portugueses em 1452 e até sentido a necessidade de deixar um vestígio da sua presença no local!...


Nota: Pesquisa em “Lendas históricas e tradicionais portuguesas” feita por V. Oliveira