terça-feira, 23 de junho de 2026

PENHA GARCIA E UM CASTELO TEMPLÁRIO ERGUIDO SOBRE O FUNDO DE UM MAR



Muito antes de existir Portugal, muito antes de se erguerem muralhas nesta fronteira, já existia aqui um mundo desaparecido!...
Onde hoje vemos penhascos, um castelo e uma aldeia agarrada à rocha, existiu em tempos remotos, o fundo de um oceano. Centena de anos depois, sobre essas mesmas pedras, ergueu-se uma fortaleza ligada à defesa do território e à presença templária na raia.


Em poucos lugares o tempo se deixa ver de forma tão brutal: Primeiro, a memória da Terra; depois, a memória dos homens.
Penha Garcia é um desses lugares raros, onde o tempo da geologia e da História se encontram frente a frente.
Penha Garcia impõe-se na paisagem como um lugar de vigia…


A aldeia desenvolveu-se sobre uma crista rochosa, dominante, um ponto natural de controlo sobre o vale do rio Pônsul e sobre a região envolvente.
A povoação tem origens antigas, com vestígios de ocupação remota muito anteriores à Idade Média, mas foi no contexto da consolidação do reino português e da organização da fronteira que Penha Garcia ganhou verdadeiro relevo estratégico.
Penha Garcia não é apenas um núcleo histórico preservado, é um lugar onde a própria matéria da paisagem entrou na construção da aldeia.
Os quartzitos da Serra aparecem nas casas, nos muros, nos socalcos, nos caminhos. Tudo parece nascer da mesma rocha.


Ao mesmo tempo, a memória raiana, da ruralidade das tradições locais continua presente na identidade cultural da povoação, moldada por séculos de relativo isolamento e por uma forte ligação ao património oral da Beira Interior.
O grande símbolo monumental de Penha Garcia é, sem dúvida, o seu castelo. Implantado num ponto altíssimo e escarpado, domina o vale e parece prolongar a própria crista quartzítica sobre a qual assenta.
A fortificação que hoje vemos corresponde sobretudo à época medieval, muito provavelmente com intervenção templária, e integra-se numa lógica defensiva mais ampla, articulada com outras fortalezas da região.
Mais do que a dimensão das suas estruturas, impressiona a forma como o castelo se funde com a paisagem. A rocha torna-se muralha e a muralha parece uma continuação da montanha.


Dali, o olhar abrange o vale encaixado do Pônsul, as escarpas abruptas e a vastidão de Beira raiana. É fácil imaginar sentinelas a observar movimentos à distância, atentos a qualquer sinal vindo da fronteira. Esta paisagem impressionante foi o resultado de um processo geológico imenso, feito de sedimentação marinha, enterramento, deformação tectónica, elevação e erosão.
Há cerca de 480 milhões de anos, no período Ordovício, esta região encontrava-se submersa por um mar pouco profundo. Não havia montanhas, nem castelos, nem sequer via terrestre complexa como a conhecemos hoje. Existia um fundo oceânico onde se acumulavam areias e lodos, num ambiente habitado por diversos organismos marinhos. É nesse antigo fundo marinho fossilizado que Penha Garcia guarda um dos seus tesouros mais célebres: Os icnofósseis, ou seja, vestígios de actividade de seres vivos preservados na rocha.
Com os grandes movimentos tectónicos que afectaram a Península Ibérica, essas camadas foram dobradas, erguidas e colocadas em posição vertical. O que era fundo oceânico passou a formar serras e escarpas.
O resultado é extraordinário. Ainda hoje podemos seguir na rocha, o trajecto de animais que viveram há quase quinhentos milhões de anos. Nalguns casos, essas marcas revelam não apenas movimento, mas comportamento.
Em Penha Garcia, a abundância, dimensão e qualidade de preservação destes vestígios fazem do local uma referência internacional no estudo dos icnofósseis do Ordovício. É como se o antigo fundo oceânico tivesse guardado não apenas a presença da vida, mas um fragmento da sua acção. E é precisamente aqui em Penha Garcia se torna verdadeiramente única. Porque nesta paisagem cruzam-se duas profundezas de tempo quase impossíveis de conciliar à primeira vista.
De um lado, o tempo geológico, imenso, silencioso, anterior a qualquer memória humana, quando trilobites percorriam os fundos marinhos de um planeta irreconhecível.
Do outro, o tempo histórico, mais breve mas igualmente intenso, marcado por castelos, forais, fronteiras, ordens militares e pela lenta construção de Portugal.


Neste lugar, essas duas histórias não estão separadas, tocam-se. O castelo medieval ergue-se sobre rochas que começaram por ser sedimentos marinhos; as muralhas da fronteira assentam sobre a memória de um oceano desaparecido, e a aldeia, no interior mais profundo do país, lembra-nos que esse território, hoje tão distante do mar, já foi o fundo de um mundo oceânico submerso.


Talvez seja por isso que nos impressiona tanto. Porque aqui não vemos apenas uma paisagem ou um monumento. Vemos a paisagem do tempo em escala quase absoluta. Penha Garcia é, por isso, muito mais do que uma aldeia histórica da Beira Interior. É um lugar onde a Terra e a História se encontram de forma rara e poderosa.
Um lugar onde os rastos de trilobites convivem com a memória dos Templários. Onde a geologia prepara o cenário e os homens escreveram, depois, um novo capítulo sobre a mesma pedra. E onde o interior profundo de Portugal nos recorda, em silêncio, que até a mais firme fortaleza pode ter começado no fundo do mar.

https://www.youtube.com/watch?v=JD64lwH3cLc

Nota: Pesquisa num documentário “À Descoberta de Portugal”, resumo e imagens compostas por V. Oliveira

terça-feira, 9 de junho de 2026

CURIOSIDADE ENTRE DUAS ILHAS E FUSOS HORÁRIOS - Ilhas Diomedes



Há algo excepcionalmente estranho nas duas ilhas, a Grande Diomedes, localizada no extremo leste da Rússia, e a Diomedes Menor, localizada dentro das fronteiras dos EUA, que desafia a lei dos fusos horários.

São ilhas adjacentes e a distância entre elas é de apenas 4 km, mas há uma diferença horária de 21 horas entre elas.


Pode-se caminhar entre as duas ilhas durante o inverno quando a água está congelada, mas a grande diferença horária pode mudar eventos comuns de maneiras estranhas: quando é tarde na ilha russa, também é tarde na ilha americana, mas na ilha russa é tarde de hoje e na ilha americana é a tarde de ontem.

Se alguém que mora na ilha russa decidir ir «na tarde de segunda-feira, 1 de janeiro» visitar um amigo que vive na ilha americana, chegará na «no domingo 31 de dezembro».

Mas qual é a razão desta enorme diferença de horário?

Devido à localização privilegiada das duas ilhas, a Linha Internacional de Data (IDL) passa entre elas. É uma linha imaginária que atravessa o Oceano Pacífico e estabelece o fuso horário no mundo.


A Ilha Grande Diomedes está 21 horas à frente da Ilha Diomedes Menor, pelo que a primeira passou a ser chamada de Ilha de Amanhã e a segunda Ilha de Ontem.

Quem o desejar pode comemorar duas vezes a chegada do Ano Novo mobilizando-se a uma curta distância.



Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

HISTÓRIA DA VILA DE TEIXEIRA DE SOUSA



Até 1927, o território onde nasceu a povoação Teixeira de Sousa, conhecido então por Luau (nome do rio fronteiriço), estava do “outro lado”, do lado dos Belgas. Com efeito, antes do tratado de Luanda de 1927, a fronteira de Angola ficava mais a oeste. O limite era marcado pelo Rio Luau e pelo Rio Cassai. Os postos militares portugueses mais próximos daquela zona estavam situados em território que já era Angola na altura.



O mais importante era Nana Candundo.
Em 10 de março de 1912, o Capitão António Braz assumiu o cargo de Capitão-mor de Nana Candundo. Nesta fase, o posto não tinha apenas funções militares, mas servia como centro administrativo e de representação do Governo-Geral de Angola junto das autoridades tradicionais (sobados).
A região era habitada por povos de origem Bantu, principalmente das etnias Cokwê (Quiocos), Lunda e Luvale. Estes grupos viviam em aldeias dispersas (libatas) sob a autoridade de chefes tradicionais conhecidos como Sobas. O nome “Luau” já existia antes da povoação portuguesa, referindo-se ao Rio Luau, que servia de fronteira natural e ponto de referência geográfico. Havia pequenos aglomerados populacionais junto ao rio que facilitavam o comércio e a travessia entre os territórios que hoje são Angola e a República Democrática do Congo.
No contexto da delimitação das fronteiras de Angola, e do planeamento e construção dos Caminhos de Ferro de Benguela até à fronteira leste, foram as missões de reconhecimento de natureza diplomáticas e de engenharia que levaram à assinatura do Tratado de Luanda de 1927, um marco fundamental na consolidação do território de Angola.
Essas missões tiveram os seguintes objetivos: garantir que o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) pudesse chegar à fronteira do Congo Belga pelo caminho mais curto e eficiente; identificar os limites naturais (rios como o Kassai, Luau e Luakano) para definir a nova fronteira; estudar a qualidade dos solos e a presença de minérios na região da Lunda, para justificar a importância estratégica da troca territorial; preparar o terreno para a instalação de postos alfandegários e administrativos logo após a ratificação do tratado.
As figuras centrais nestas negociações e nos estudos geográficos foram:
A) Coronel António Vicente Ferreira, que exercia as funções de Alto-Comissário (Governador-Geral) de Angola entre 1926 e 1928. Engenheiro militar e político, foi o principal estratega por trás da troca de territórios. Negociou diretamente com os belgas a cedência da região de Mia (no estuário do Zaire, a norte) em troca da região estratégica que ficou conhecida por “Bota do Dilolo” no leste.
B) Carlos de Roma Machado: Tenente-coronel de engenharia que integrou delegações e missões de estudos luso-belgas. O seu trabalho técnico em cartografia e engenharia foi essencial para fundamentar a viabilidade do traçado ferroviário e a demarcação das novas fronteiras. Carlos Roma Machado foi também uma figura central na criação da cidade de Huambo, em 1912.
C) Lopes Galvão: Coronel e engenheiro que também colaborou nos estudos técnicos sobre a expansão das infraestruturas e a ocupação do interior.
Antes do Tratado de Luanda de 1927, a fronteira leste de Angola não possuía a saliência geográfica hoje conhecida como a “Bota do Dilolo”. A linha de demarcação era mais “reta” e toda a região do Dilolo e as margens do Alto Luau estavam sob soberania belga, incluindo o território que hoje compreende o município do Luau.
No Noroeste (Zaire), Portugal detinha a região de Mia, uma área estratégica junto ao estuário do rio Zaire (perto de Matadi e Noqui), onde os belgas queriam expandir a sua linha férrea para evitar terrenos montanhosos difíceis.
Com a assinatura do Tratado de Luanda, os limites foram redefinidos para o traçado que conhecemos hoje: Portugal cedeu à Bélgica o território de Mia no noroeste de Angola (apenas cerca de 3 km²), porque os belgas precisavam desesperadamente daquele pequeno terreno para expandir o porto e a linha férrea deles que ligava Léopoldville (Kinshasa) ao mar. Em troca recebeu uma área de aproximadamente 3.500 m2, no leste, a “Bota do Dilolo”, onde a fronteira passou a ser definida pelo curso do Rio Luau e pelo Rio Kassai, empurrando o limite de Angola mais para leste e permitindo que o Caminho-de-Ferro de Benguela chegasse à fronteira por um caminho mais plano e direto.

Foi uma das trocas territoriais mais desproporcionais da história colonial (3.500 km² por 3 km²), considerada uma vitória diplomática para Portugal, pois garantiu o controlo sobre uma via vital de transporte de minérios do Katanga (Congo) para o porto de Lobito, em Angola.
A partir de 1928, a instalação de um posto administrativo moderno e da estação, consolidou a povoação civil que cresceria com o Caminho de Ferro de Benguela, denominada Teixeira de Sousa, em honra do médico e ex-ministro do Ultramar.
Mas foi depois de 1956 , no contexto de um conjunto de reformas administrativas levadas a efeito pelo governo de Angola, que se deu a elevação de Teixeira de Sousa à categoria de vila, através do Diploma Legislativo n.º 2757, publicado no Boletim Oficial de Angola em 28 de agosto de 1956. Na mesma altura, outras localidades angolanas,como Ndalatando, a antiga Vila Salazar, e Sumbe, a antiga cidade de Novo Redondo, foram elevadas a novas categorias urbanas.
A partir desse ano, Teixeira de Sousa conheceu grande impulso urbanístico, com o governo colonial a investir na urbanização de “estilo europeu” para atrair funcionários administrativos e técnicos dos caminhos de ferro para uma zona tão isolada.


A ordenação heráldica das armas, bandeira e selo da localidade foi estabelecida através da Portaria n.º 22667, publicada no Diário do Governo n.º 104, 1.ª Série, em 2 de maio de 1967: 
Escudo: De vermelho, com uma granada flamejante de ouro. 
Bordadura: De prata, carregada com sete escudetes de azul (cada um com cinco besantes de prata), representando a ligação à Coroa Portuguesa. 
Coroa Mural: De prata, com quatro torres (estatuto de vila). 
Listel: Branco, com a designação “VILA DE TEIXEIRA DE SOUSA” em caracteres negros. 
Bandeira: Esquartelada de branco e azul. 
Este brasão foi utilizado até à independência de Angola em 1975, quando a localidade foi renomeada para Luau e os símbolos coloniais foram substituídos pelos símbolos nacionais da República de Angola.
in
https://ombilaiongombe.wordpress.com/2026/04/12/vila-teixeira-de-sousa-a-ultima-estacao-dos-c-f-b-em-solo-angolano/

terça-feira, 12 de maio de 2026

PÊRO DA COVILHÃ


 

Com cerca de 18 anos, a desenvoltura de Pêro da Covilhã impressionou um espanhol que no momento visitava a Covilhã para comprar tecidos e, teve em mente convidá-lo para servir o seu amo, D. Juan de Guzmán, irmão do Duque de Medina-Sidonia, um dos mais conceituados fidalgos de Sevilha.

E Pêro aceita a proposta…partindo para Sevilha, onde lhe fora atribuído o papel de espadachim.

Surpreendido com a estatura de Pêro da Covilhã, D. Juan de Gusman convida-o a participar nas embarcações do seu irmão, o Duque, conhecido também como o Pirata Espanhol. Mas Pêro recusa a oferta e, em 1474, acompanha D. Juan a Lisboa para um encontro com D. Afonso V de Portugal.

D. Afonso V interessou-se por Pêro da Covilhã conhecendo o seu domínio de línguas, prioritariamente a língua árabe. E D. Juan cede a el-rei os serviços do português. É assim que Pêro da Covilhã, com 24 anos, é admitido como moço de esporas de D. Afonso V, e nomeado escudeiro, com direito a armas e cavalo.

Em 1476 acompanha D. Afonso V na batalha de Toro, na tentativa fracassada de D. João de reclamar o trono de Castela, já que era cunhado de Henrique IV de Castela. Mais tarde, acompanhou D. Afonso na jornada a França para pedir auxílio ao rei Luís XI na luta pelo trono de Castela, que seria rejeitado.

Entretanto, D. Afonso V abdica do trono, para D. João II.

E assim D. João II, para estabelecer relações diplomáticas com a suposta "Terra do Preste João”, convida Pêro da Covilhã a partir por terra até à Etiópia prosseguindo a rota em direcção à Índia.

MISSÃO NO ORIENTE



Em 1487, D. João II envia-o juntamente com Afonso de Paiva em busca de notícias do mítico reino do Preste João e, da Índia. E disfarçados de mercadores e treinados por cosmógrafos régios e pelo rabino de Beja que lhes terá indicado as portas da cidadela, no Cairo, partem a cavalo a 7 de Maio de Santarém  (onde estava a Corte), rumo a Valência.

Atravessam o sul da Península Ibérica até Barcelona, onde chegam a 14 de Junho. Daí, uma nau levou-os até Nápoles em dez dias e, daqui até ao arquipélago grego noutros dez dias. Desembarcam na ilha de Rodes, que pertencia à Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, repousando em casa de frades portugueses.

Rodes seria a última terra cristã que pisariam. Daí, rumaram para Alexandria, no Egipto, cuja religião predominante era o islamismo, onde compraram algumas mercadorias para o seu disfarce de mercadores. Depressa adoeceram com as chamadas "febres do Nilo", quase morrendo. O naíbe, lugar-tenente do Sultão, toma-lhes as mercadorias dando-os por mortos e sem descendentes. Porém, ambos recuperam e o naíbe restitui-lhes o valor das mercadorias. A partir daí tentam reproduzir o trajecto das especiarias no sentido oposto: rumo a Roseta de cavalo e de barco ao Cairo. Juntam-se a uma caravana que, percorrendo o deserto pela margem oriental do Mar Vermelho, vai cruzar a Arábia, rumo a Adem, às portas do Oceano Índico; passam pelo Suez, Tor, o deserto do Sinai, Medina e Meca, a cidade sagrada do Islão, onde tiveram que fazer penitência e rezar ao profeta Maomé, para manter o disfarce.

Chegam a Adem já no ano de 1488 e aí se separam com reencontro combinado no Cairo, junto à porta da cidadela, durante o anoitecer de um dos primeiros noventa dias de 1491; Afonso de Paiva ruma à Etiópia em busca do Preste João, e Pêro da Covilhã vai para a Índia.

Pêro chega em Novembro de 1488 a Calecute, um dos pequenos reinos da Índia actual. Aí terá conhecido um mercador que lhe terá explicado o percurso das especiarias; terá indicado a existência do Ceilão, de onde vinha a canela, e da Malásia, a noz-moscada, e o papel de Calecute em todo o processo. Era aqui que afluíam as especiarias, prontas para embarcar rumo ao Mar Vermelho (e, posteriormente, para Veneza).

Na sede de melhor saber, Pêro visita Cananor, Goa e Ormuz, na costa do Malabar, confirmando que o movimento comercial era, de facto, inferior ao de Calecute.

Em Dezembro de 1489 parte Pêro da Covilhã de Ormuz rumo à costa oriental de África. Visita Melinde, Quíloa, Moçambique e, finalmente, Sofala, registando os entrepostos comerciais dos mouros. Pêro da Covilhã regista, assim, que uma vez dobrado o fim da África (mais tarde designado do Cabo das Tormentas), bastará atingir Sofala ou Melinde e facilmente se alcançaria Calecute. Será com base nesta anotação que Vasco da Gama decidiu atravessar o Oceano Índico directamente para Calecute, na sua pioneira expedição marítima à Índia.

A 30 de Janeiro de 1491, Pêro da Covilhã dirige-se às portas da cidadela do Cairo, conforme combinado e, em vez de Afonso de Paiva, encontra o Rabi Abraão (o rabino de Beja) e um outro judeu português, José de Lamego, que lhes comunicam que Afonso de Paiva teria falecido ali no princípio do mês, mas que falecera de peste sem poder contar as suas viagens ou aventuras, da notícia do nascimento do seu filho, que Catarina baptizou de Afonso, em homenagem ao rei, e do feito de Bartolomeu Dias, que tinha dobrado o Cabo das Tormentas, agora designado Cabo da Boa Esperança.

Mas el-Rei D. João II teria pedido ao Rabi Abraão que fosse confirmar a importância de Ormuz, segundo relatos de José Lamego, que desconhecia que importante era Calecute, e não Ormuz.

Assim, Pêro redige o relatório para o rei, que seria entregue por José Lamego, e parte para Ormuz com o Rabi. Aí, Pêro da Covilhã deixa o Rabi e regressa a Adem, para saber notícias do Preste João, já que Afonso de Paiva não as pôde comunicar. Daí toma um barco até Zeilá, mas a sul, já na costa da Etiópia.

Etiópia             

Rico e bem acolhido pelo imperador Alexandre, descendente do Preste João, ali casou e teve filhos, vindo a morrer muitos anos depois. Constatou que afinal o mítico reino não era mais senão um pobre povo que tentava evitar ser esmagado pelos vizinhos muçulmanos — não poderia valer Portugal de qualquer ajuda, mas sim a eles que teriam que ser ajudados na luta contra os infiéis.

Impedindo de sair por Nahu, irmão e sucessor de Alexandre, que entretanto morrera inesperadamente, e que alegava o costume de não deixar sair os forasteiros que entrassem no reino, recebe terras do soberano e aí se fixa como senhor feudal, casando novamente e de quem teria numerosa descendência.

Com a morte de Nahu, em 1508, Pêro da Covilhã é mantido como conselheiro régio da nova rainha Helena. É por sua indicação que a rainha envia o embaixador Mateus a Lisboa, acompanhando dois frades portugueses que ali apareceram, e de quem viria Pêro da Covilhã a saber da morte de D. João II, da ascensão de D. Manuel I, e dos sucessos de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

Recebeu, entretanto, a visita de alguns portugueses a quem terá dado notícias importantes. É, em 1521, encontrado pelo embaixador D. Rodrigo de Lima. O relato das suas viagens foi enviado ao padre Francisco Álvares pelo próprio Pêro da Covilhã, que o publicou na Verdadeira Informação das Terras do Peste João das Índias, que veio a ser editada em Lisboa, em 1540.

 

Nota: Pesquisa feita por V. Oliveira


terça-feira, 28 de abril de 2026

ROSTOS QUE FAZEM O MOXICO LESTE - CONHEÇA ANABELA NGAMBO “RAINHA NYAKATOLO”



No dia do seu aniversário, celebramos a vida e o percurso de uma mulher cuja história se confunde com a própria história de resistência, cultura e identidade do povo do antigo Alto-Zambeze.

No coração da terra fértil do Moxico Leste, onde os rios contam histórias antigas e as tradições caminham de mãos dadas com a memória dos antepassados, ergue-se a figura digna e respeitada de Anabela Ngambo Kaumba, hoje conhecida como Rainha Nyakatolo - Ngambo II.
Filha de Jaime Kaumba e Laura Kainda, nasceu no dia 13 de Março de 1945, na vila histórica de Cazombo, no então município do Alto-Zambeze. Hoje, aos 81 anos, permanece solteira e reside em Nana Candundo, no bairro Nyakatolo, lugar onde a tradição se mantém viva.
A sua vida é um testemunho de coragem, sacrifício e compromisso com Angola.
No dia 5 de Agosto de 1962, com apenas 17 anos de idade, Anabela Ngambo ingressou nas fileiras do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, na Zona A, comuna de Lumbala-Kaquengue, acompanhando os seus pais no ideal de libertação da pátria.
Mas escolher a liberdade, naquele tempo, significava enfrentar o peso da perseguição colonial.
Em 1963, no momento em que as autoridades da administração colonial portuguesa descobriram o envolvimento da sua família com o movimento revolucionário, a repressão tornou-se dura. A família passou a ser constantemente vigiada e os seus passos controlados. O seu pai e os seus irmãos mais velhos foram presos pela PIDE-DGS e levados para as cadeias do Luau, acusados de colaborar com os movimentos de libertação. Mesmo assim, o espírito de resistência nunca se apagou.
Em 1964, depois de sucessivas perseguições, Anabela Ngambo e o seu irmão João Kayombo foram obrigados a refugiar-se na República da Zâmbia. Ali viveram primeiro na província de Kitwe-Chimbuluma e, posteriormente, na localidade de Kalombo. Foi exactamente no exílio que o compromisso com Angola se fortaleceu ainda mais, envolvendo-se directamente na causa através do movimento político.
Em 1974, com os acordos que anunciavam a retirada do regime colonial português e preparavam o caminho para a Independência de Angola, Anabela Ngambo foi seleccionada para integrar a primeira coluna de regresso ao país.
O grupo era comandado inicialmente por Kakunga, mais tarde substituído por Manhinga. Xieto exercia a função de Chefe do Estado-Maior, Rui de Matos era responsável pelas finanças e Jika desempenhava o papel de comissário do grupo.
Apesar do ambiente ainda instável e do conflito que viria a marcar o período pós-independência, o regresso simbolizava esperança, revelando um verdadeiro amor por estas terras de Angola.
No dia 7 de Fevereiro de 1975, Anabela Ngambo participou na recepção da primeira visita do Dr. António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, à vila de Cazombo.
Rainha Nyakatolo Chissengo
Na ocasião, o Presidente manifestou profunda gratidão à Rainha Nyakatolo Chissengo e ao povo do então Alto-Zambeze, pelo apoio moral e logístico prestado aos guerrilheiros durante a luta de libertação nacional.
Anabela também participou na recepção da segunda visita presidencial, realizada a 5 de Setembro de 1978.
Em 13 de Novembro de 1983, com a então ocupação do município do então Alto-Zambeze durante o conflito armado, Anabela e muitos outros habitantes foram novamente obrigados a refugiar-se na Zâmbia, onde permaneceu até ao cessar-fogo de 1992.
Apesar do tempo e dos momentos peculiares, a tradição continuou a guiar o destino da família Nyakatolo, como verdadeiros seguidores da família real descendente de Chinhama.
Em 2011, após o falecimento da regedora Mahongo Kakengue, foi novamente chamada pela tradição e pela confiança do povo para assumir o título de Regedora de Kakengue, função que exerceu durante doze anos.
Rainha Nyakatolo Chilombo
Com a morte da sua irmã, Rainha Nyakatolo Lurdes Chilombo, no dia 15 de Julho de 2023, a linhagem ancestral voltou a reunir-se. Seguindo os costumes e a sabedoria da tradição, a família escolheu Anabela Ngambo para assumir o trono Nyakatolo.
Assim, no dia 9 de Setembro de 2024, foi oficialmente entronizada como a 6ª Rainha Nyakatolo - Ngambo II.
Uma mulher que carrega no olhar a memória dos seus antepassados e, nos ombros, a responsabilidade de preservar a identidade cultural do seu povo.
As circunstâncias da luta de libertação impediram que prosseguisse os estudos. A sua formação escolar terminou na 3ª classe, na Escola Evangélica de Sakamuengo, ainda no período colonial.
Desde antes da independência até aos dias actuais, Anabela Ngambo tem trabalhado incansavelmente pelo desenvolvimento de Angola, sobretudo na preservação, valorização e divulgação dos valores culturais e identitários do povo angolano.
Foi também uma voz activa na defesa da identidade histórica da nova província criada no processo de Divisão Político-Administrativa do país.
A vida de Rainha Nyakatolo – Anabela Ngambo é mais do que uma biografia. É um caminho feito de luta, tradição, resistência e liderança.
Uma mulher que atravessou a guerra, o exílio e as mudanças do tempo, sem nunca abandonar o compromisso com o seu povo.
Hoje, no silêncio respeitoso das terras do Moxico Leste, o seu nome ecoa como símbolo de dignidade, sabedoria e continuidade da cultura ancestral.
Neste mês dedicado às mulheres e, de forma especial, no dia do seu aniversário, o Governo Provincial do Moxico Leste felicita a soberana do povo Luvale, bem como as demais mulheres da província, manifestando profunda satisfação e empenho para que continuem a contribuir cada vez mais para o crescimento e desenvolvimento da jovem província.

Em: GOVERNO PROVINCIAL DO MOXICO LESTE

terça-feira, 14 de abril de 2026

SOLDADO MILHÕES, O LAVRADOR TRANSMONTANO QUE ENFRENTOU UM EXÉRCITO


Em Abril de 1918, quando a Primeira Guerra Mundial arrastava a Europa para um dos seus capítulos mais sombrios, um jovem soldado português, franzino e analfabeto, tornou-se protagonista de um dos episódios mais extraordinários da história militar nacional.

Aníbal Augusto Milhais (1895 - 1970), natural de Valongo de Milhais (Murça), transformou‑se, numa única madrugada, no herói que os portugueses apelidariam para sempre de "Soldado Milhões" — “porque valia milhões”, como diria o comandante que o distinguiu oficialmente após o combate.

Milhais era um trabalhador agrícola habituado à dureza do campo transmontano. Alistou‑se no Exército em 1915 e, dois anos depois, integrou o Corpo Expedicionário Português (CEP), sendo destacado para a frente de batalha na Flandres, como membro da 2.ª Divisão de Infantaria. A participação portuguesa na guerra era marcada por falta de recursos, cansaço extremo e escassos meios logísticos, num sector onde se acumulavam baixas muito antes de qualquer grande batalha.

La Lys: o dia em que Milhais mudou o destino de centenas

A 9 de Abril de 1918, os alemães lançaram a ofensiva da Primavera — conhecida entre os portugueses como Batalha de La Lys — esmagando posições aliadas na região de Estaires. O CEP, que deveria ter sido substituído nessa mesma manhã, enfrentou sozinho o impacto inicial da ofensiva. Em poucas horas, o contingente português sofreu quase 14 mil baixas entre mortos, feridos e prisioneiros, num dos maiores desastres militares da participação lusa no conflito.

Foi nesse cenário de colapso generalizado que Aníbal Milhais recusou abandonar a sua posição. Armado com uma metralhadora Lewis, de 12,7 kg, que manejava com rara precisão, manteve fogo contínuo sobre duas colunas alemãs, assegurando a retirada de centenas de soldados portugueses e escoceses. A manobra, registada mais tarde pelos relatórios aliados, foi decisiva para evitar um massacre ainda maior.

Segundo os arquivos militares, Milhais deslocava‑se entre trincheiras, utilizando munições recolhidas de soldados mortos para prolongar o combate e criar a ilusão de que várias posições continuavam defendidas, quando na verdade combatia completamente sozinho.

Quatro dias perdidos entre fogo, lama e cadáveres

Quando já não tinha munições, Milhais retirou‑se, iniciando um percurso errante de quatro dias pelos campos devastados da Flandres. Alimentou‑se apenas das castanhas piladas que levava nos bolsos, bebeu água imprópria em valas e ribeiros e refugiou‑se entre cadáveres de animais para fugir às patrulhas alemãs. Durante esse período, ainda salvou um major médico escocês e ajudou civis que tentavam escapar de uma casa em chamas, factos confirmados mais tarde por testemunhos aliados.

Quando regressou finalmente ao acampamento português, sujo, esgotado e quase irreconhecível, muitos acreditavam estar perante um fantasma. Fora dado como morto dias antes.

Da glória militar ao regresso à terra pobre

O ato de coragem valeu‑lhe a Ordem da Torre e Espada, a mais alta distinção militar portuguesa, entregue no próprio campo de batalha — caso único na história da condecoração. Recebeu também distinções estrangeiras, incluindo a Legião de Honra francesa.

Mas a vida do herói não seguiu um caminho de glória permanente. Regressado a Valongo de Milhais após a guerra, encontrou a mesma pobreza e os mesmos campos áridos da infância. Casou, teve vários filhos e tentou emigrar para o Brasil em 1928. Os portugueses lá residentes, ao perceberem que o herói nacional vivia na miséria, angariaram fundos para o trazer de volta, considerando indigno que alguém com o seu legado fosse obrigado a sobreviver como emigrante pobre.

Em 1924, a povoação onde nascera passou oficialmente a chamar‑se Valongo de Milhais, em sua homenagem. O soldado viveu o resto da vida de forma simples, trabalhando a terra, sem nunca se vangloriar dos feitos que o tornaram lendário.

Milhais morreu no dia 3 de Junho de 1970, com 74 anos, na aldeia onde nascera. A sua história, porém, sobreviveu muito além da sua própria voz.

O herói que o país não esquece

O Soldado Milhões representou o que a Primeira Guerra raramente permitiu mostrar: a coragem individual num conflito monstruoso que esmagava vidas sem distinção. O seu episódio tornou‑se símbolo nacional e objecto de investigações, biografias, reportagens e de filmes — entre eles, a obra cinematográfica de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa: "Soldado Milhões" (2018), que reaproximou o público da figura que o país nunca deixou de reverenciar.

Entre os milhares de portugueses enviados para uma guerra distante, Aníbal Milhais destacou‑se não pela força física ou pela instrução, mas pela coragem incomum, pela resistência e pelo altruísmo que salvou vidas quando tudo parecia perdido

Pequeno em estatura, gigante em bravura: o soldado que valia milhões continua a ocupar um lugar único na memória de Portugal.

 


Nota: Pesquisa e composição feita por V. Oliveira