quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A BRAGANÇA




… Quem percorreu as ruas frias de Inverno a derreter saudade nas tardes cálidas de Julho, as Costas empinadas que levam ao castelo e à Cidadela, os bairros da Coxa e dos Batocos, as verbenas no jardim António José de Almeida, os passeios floridos na Avenida João da Cruz.
Quem viu o sol pujante de força a nascer para lá da Lombada, o poente de fogo atrás da capela da Senhora da Serra e subiu a escadaria do santuário de S. Bartolomeu.
Quem descansou do passeio matinal no pedestal do Cruzeiro e mergulhou nas tertúlias intermináveis de narração no Chave D'ouro e no Central, na Praça da Sé ou escutou vezes sem conta o som do relógio da torre a convidar à ceia.
Quem calcorreou as ruas estreitas da Vila e entrou nas suas tabernas a petiscar conversas de vinho e presunto, regressando a casa pelos caminhos térreos semidesérticos da Estacada e do Toural, a respirar o perfume estudantil dos nevões que obrigavam ao fecho das escolas. Quem sentiu o fumo saído das lareiras e o cheiro a jantar das vielas estreitas pelo caminho... sabe que o convívio com aquelas gentes é prenhe de afabilidade, cheio de tudo o que a vida oferece de alegria e de tristeza, de urzes quentes e de giestas frias, de grandeza e de muito amor ao berço que as viu nascer.
--Por ter crescido e vivido lá (...) escutei silêncios e quietudes adolescentes em tardes de calor, respirei o odor dos frios das estevas ressequidas e ouvi histórias de gente pura e alma nobre, escutei passados de gente idosa de bem receber, de amores imberbes como a face rubra de rostos a florir de vida e desamores frios como as noites gélidas de Janeiro.
São histórias vividas as que me lembro, colhi-as por ali na margem esquerda do Fervença, durante os tempos em que o Jardim era ponto de encontro de segredos; foram sinais firmes de maturação e crescimento que ali passei.
Se não lhes parecerem dignas de atenção, a culpa é do narrador, na veleidade de descrever o que só vivido se pode sentir...

Júlio Corredeira
(excerto de: Memórias)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

O ROUBO DOS BURROS - TORRE DE DONA CHAMA


Local: Torre De Dona Chama, MIRANDELA, BRAGANÇA
Contavam os mais antigos que os mouros, noutros tempos, viviam na torre da vila e dali mandavam em todas estas terras à volta. A mulher do rei mouro, que era muito má, quando queria chamar as pessoas para que fossem trabalhar para ela, tocava uma sineta e as pessoas então diziam:
— A dona chama! A dona chama!
E destas palavras ficou o nome Torre de Dona Chama.
Um dia, o povo, farto de ser mandado pelos mouros, pediu ao rei cristão que viesse libertá-lo daquele jugo. O rei cristão veio no dia da festa da terra e resolveu pôr em prática um plano infalível. Mandou convidar o rei mouro para a cerimónia da bênção do pão, ao que este acedeu, comparecendo com toda a sua guarnição.
E, como a torre ficou então desprotegida, o rei deu ordens aos populares para que, enquanto decorriam as cerimónias, fossem lá e roubassem todos os burros aos mouros que era a única cavalaria de que dispunham.
E, com esta cavalaria, o povo ganhou a batalha, tomou o castelo e expulsou os mouros da povoação.
Fonte: PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.272

terça-feira, 29 de setembro de 2026

FRANCISCO DANIEL ROXO CAÇADOR, GUERREIRO, LENDA.


Nasceu a 1 de Fevereiro de 1933 em Mogadouro, Trás-os-Montes.

Em 1951 partiu para Moçambique. Aprendeu a selva, o rio, a montanha, o vento e o silêncio da noite africana — como poucos brancos alguma vez aprenderiam.

Foi caçador profissional durante anos. Quando a guerra chegou, em 1964, tornou-se uma coisa diferente.
Tornou-se uma lenda.

Com 30 homens — ex-guerrilheiros da Frelimo por ele capturados e reconvertidos — criou a mais eficaz unidade de contra-guerrilha do Niassa. Usava as tácticas do inimigo contra o próprio inimigo. Infiltrava-se na Tanzânia. Atacava de noite. Desaparecia na selva. 

Durante todo o tempo que actuou no Niassa, sofreu apenas 3 baixas. A Frelimo chegou a colocar um prémio avultado sobre a sua cabeça. Chamavam-lhe o “Diabo Branco”. 

Portugal condecorou-o com duas Cruzes de Guerra e uma Medalha de Serviços Distintos — sem que sequer fosse militar de carreira.

Depois do 25 de Abril e da independência de Moçambique, recusou parar e, com 41 anos, alistou-se no Batalhão 32 “Búfalos” do Exército Sul-Africano — aceitando as divisas de simples Sargento.

Em Dezembro de 1975, na Batalha da Ponte 14, no rio Nhia, ele e um punhado de portugueses derrotaram milhares de cubanos e do MPLA. Os portugueses do Batalhão 32 sofreram quatro mortos. Os Cubanos e MPLA perderam mais de 400 homens. Entre os mortos inimigos estava o comandante da força expedicionária cubana.

Foi o primeiro estrangeiro a receber a Cruz de Honra da África do Sul — a mais alta condecoração militar daquele país.

Morreu a 23 de Agosto de 1976, em Angola — quando foi socorrer um dos seus homens ferido e a sua viatura rebentou uma mina. Ficou preso debaixo do veículo. Os seus camaradas tentaram libertá-lo — era demasiado pesado.

O comandante Jan Breytenbach escreveu que Daniel Roxo acendeu um cigarro, fumou-o calmamente até ao fim — e então morreu. Sem um gemido. Sem uma queixa.

Está sepultado em Pretória.

Portugal ainda não lhe fez a homenagem que merece.

E, Mogadouro ainda não ergueu uma estátua ao seu filho mais ilustre.


Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira


terça-feira, 15 de setembro de 2026

CUCUFATE


No coração do Alentejo, em Vila de Frades, Portugal, encontram-se as impressionantes ruínas da vila romana de São Cucufate, um testemunho da grandiosidade e sofisticação da civilização romana no século IV d.C.

Este complexo rural foi originalmente construído no século I, mas atingiu seu esplendor no século IV, com uma estrutura imponente que incluía um palácio, áreas de armazenamento e termas. Os seus habitantes eram membros da elite romana, que administravam vastas terras dedicadas à agricultura e à produção de vinho.

Após o declínio do Império Romano, São Cucufate foi reutilizada por monges medievais, antes de ser abandonada. Hoje, as suas ruínas impressionantes ainda contam a história de um passado de riqueza e poder, revelando detalhes da vida quotidiana e da arquitetura romana em Portugal.













Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira  

terça-feira, 1 de setembro de 2026

PRESENÇA DOS BÓERES NO SUL DE ANGOLA


Huíla – Entre as montanhas do planalto da Huíla e as paisagens da Serra da Cela permanece viva uma das histórias mais marcantes, embora pouco conhecida, da história de Angola: a chegada e fixação dos bóeres, descendentes de colonos de origem holandesa, alemã e francesa provenientes da África Austral.
A presença desta comunidade remonta ao final do século XIX, quando centenas de famílias realizaram a célebre "Dorsland Trek" (Jornada da Sede), uma longa e difícil migração através do deserto do Kalahari. Em busca de liberdade religiosa, autonomia política e melhores condições de vida, enfrentaram anos de escassez de água, doenças e inúmeras perdas humanas e de animais.
Em 1879, os primeiros grupos atravessaram o rio Cunene e chegaram ao território angolano. Após entendimento com a administração colonial portuguesa, estabeleceram-se na região da Humpata, onde fundaram, em 1881, uma das mais importantes comunidades bóeres em Angola.

A fertilidade dos solos e o clima ameno do planalto favoreceram o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Os bóeres introduziram novas técnicas agrícolas, sistemas de irrigação e métodos de criação de gado que contribuíram para o crescimento económico da região.
Um dos maiores legados deixados por esta comunidade foi o carro bóer, uma robusta carroça de madeira puxada por juntas de bois, que durante décadas constituiu o principal meio de transporte entre o litoral e o interior de Angola. Antes da chegada do caminho-de-ferro e dos veículos motorizados, estes carros desempenharam um papel fundamental no escoamento de produtos agrícolas, borracha, cera e mercadorias, ligando Moçâmedes, Benguela, Huíla, Bié e Moxico.
Os bóeres participaram igualmente na abertura e manutenção de caminhos e rotas comerciais, facilitando o desenvolvimento económico do sul do país numa época em que as infraestruturas eram praticamente inexistentes.
Apesar das suas contribuições, a convivência com a administração colonial portuguesa nem sempre foi pacífica. Divergências relacionadas com impostos, educação, língua e organização comunitária levaram a sucessivos conflitos. A comunidade procurava preservar a sua identidade cultural, religiosa e linguística, mantendo escolas próprias e uma forte coesão social.
Ao longo do século XX, muitos bóeres decidiram abandonar Angola. Em 1928 ocorreu um dos maiores movimentos de saída, com numerosas famílias a estabelecerem-se no então Sudoeste Africano, actual Namíbia. Nas décadas seguintes, o número de residentes continuou a diminuir, culminando praticamente com o desaparecimento da comunidade organizada antes da independência de Angola, em 1975.
Actualmente, um dos principais testemunhos dessa presença histórica encontra-se no Cemitério dos Bóeres, localizado na Humpata, onde repousam muitos dos pioneiros daquela migração. O local é considerado um importante património histórico e continua a despertar o interesse de investigadores, historiadores e visitantes nacionais e estrangeiros.
Além do cemitério, persistem outros vestígios da passagem desta comunidade, como antigos canais de irrigação, tradições agrícolas e referências culturais que permanecem integradas na memória colectiva da Huíla.
A história dos bóeres em Angola representa um capítulo importante da diversidade cultural do país e demonstra como diferentes povos contribuíram, ao longo do tempo, para o desenvolvimento económico e social do planalto da Huíla, enriquecendo o património histórico nacional.


Fontes: Arquivo Nacional de Angola; Universidade de Pretória (estudos sobre o Dorsland Trek); Museu Regional da Huíla; Governo Provincial da Huíla; Visite Huíla; trabalhos de historiadores sobre a migração bóer para Angola, incluindo George McCall Theal e Hermann Pössinger.
Em: REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões

terça-feira, 18 de agosto de 2026

AS CAMADAS DA TERRA ESTRUTURA INTERNA DO NOSSO PLANETA

 

Sob os nossos pés existe um universo invisível

A Terra parece sólida e silenciosa na superfície, mas no seu interior existe uma estrutura colossal formada por camadas gigantescas de rocha, metal e calor extremo. Tudo o que conhecemos, oceanos, cidades, florestas e montanhas, repousa sobre uma fina película comparada ao tamanho real do planeta.

A primeira camada é a Crosta Continental, onde vivem os seres humanos. Forma os continentes e possui espessura média entre 20 e 70 km. É composta principalmente por rochas graníticas menos densas.

Já sob os oceanos existe a Crosta Oceânica, mais fina e densa, formada por rochas basálticas, com espessura média entre 5 e 10 km.

Mesmo sendo a parte mais superficial do planeta, essa “casca” representa menos de 1% do volume total da Terra.

Logo abaixo começa o Manto Superior, que se estende aproximadamente até 660 km de profundidade. Apesar das temperaturas extremamente altas, grande parte dessa região permanece sólida devido à pressão gigantesca.

É composto principalmente por silicatos ricos em magnésio e ferro. Lentamente, essas rochas se deformam e se movimentam ao longo de milhões de anos.

Dentro do manto está uma das regiões mais fascinantes da Terra: a Astenosfera. Essa camada parcialmente pastosa encontra-se aproximadamente entre 100 e 660 km de profundidade. É nela que ocorrem as correntes de convecção que movem lentamente as placas tectónicas.

Os continentes literalmente “flutuam” sobre essa região, deslocando-se poucos centímetros por ano. Foi esse movimento que separou continentes inteiros ao longo da história do planeta.

Mais abaixo surge a Mesosfera, também chamada de Manto Inferior, indo de cerca de 660 km até 2.900 km de profundidade.

A pressão aqui é tão intensa que as rochas assumem comportamentos completamente diferentes dos observados na superfície. Essa camada representa a maior parte do volume interno da Terra e funciona como um gigantesco reservatório de calor.

Em seguida aparece o Núcleo Externo, localizado entre aproximadamente 2.900 km e 5.150 km de profundidade.

Diferente das camadas anteriores, é formado principalmente por ferro e níquel líquidos. Esse oceano metálico em constante movimento gera o campo magnético da Terra, o escudo invisível que protege o planeta contra partículas solares e radiações perigosas vindas do espaço.

E no centro absoluto da Terra encontra-se o Núcleo Interno, uma esfera sólida de ferro e níquel situado entre 5.150 km e 6.371 km de profundidade.

Mesmo com temperaturas que podem ultrapassar 5.000 °C, semelhantes às da superfície do Sol, a pressão é tão extrema que o material permanece sólido. Cientistas acreditam que essa região cresça lentamente há bilhões de anos à medida que o planeta esfria.

E existe uma curiosidade impressionante: a humanidade jamais chegou perto do núcleo terrestre. A perfuração mais profunda já feita foi o Poço Super profundo de Kola, na Rússia, que atingiu cerca de 12,2 km de profundidade. Parece muito… mas isso representa menos de 0,2% da distância até o centro da Terra. Em comparação ao tamanho do planeta, foi apenas um pequeno arranhão na crosta.

Outra descoberta surpreendente é que sabemos mais sobre a superfície da Lua e de Marte do que sobre o interior profundo da Terra. Tudo o que conhecemos das camadas internas foi descoberto principalmente através da análise das ondas sísmicas geradas pelos terramotos, que atravessam o planeta de formas diferentes conforme o material encontrado.

A Terra não é apenas um planeta. É uma máquina viva, gigantesca e dinâmica, funcionando silenciosamente há cerca de 4,5 bilhões de anos.

Sob os nossos pés existe um mundo ardente e misterioso que continua a guardar segredos que talvez a humanidade ainda leve séculos para compreender completamente.



Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira  


terça-feira, 4 de agosto de 2026

OS SAN – HABITANTES MAIS ANTIGOS DA ÁFRICA AUSTRAL


Os San, também conhecidos como Basarwa ou Khwe, são os habitantes mais antigos da África Austral.

O seu lar era o deserto do Kalahari, actualmente dividido entre Angola, África do Sul, Botswana e Namíbia.

Possuem uma cultura única e são conhecedores de muitos aspectos, desde as suas pinturas rupestres, métodos de caça, habilidades de sobrevivência, conhecimento de plantas medicinais, comestíveis e tóxicas, música, dança e crenças.

Os San inclinam depois de ajoelhados os ouvidos ao chão e conseguem determinar se a pessoa que vem e ainda não foi vista se é grávida ou uma pessoa em estado normal. É muita sabedoria!...

Antigos indígenas sul-africanos descobriram fósseis antes da ciência e podem ter adorado criaturas extintas

Um painel rupestre pintado pelos San há 200 anos retratam um animal extinto há milhões de anos, o que sugere a existência de conhecimento paleontológico que foi incorporado na crença deste povo.



Nota: Composição cativa da fonte “África Greatness”, por V. Oliveira