terça-feira, 21 de julho de 2026

A PRINCESA PERDIDA NA SAVANA


Nas vastas planícies de Angola, onde os imbondeiros vigiam a paisagem há centenas de anos, conta-se uma antiga lenda sobre uma princesa desaparecida e uma árvore que se tornou sua guardiã.
É uma história de coragem, destino e esperança.
Dizem que, há muito tempo, existia um poderoso reino situado entre rios e montanhas. O soba governava com justiça e o povo vivia em paz. A sua única filha, a princesa N'Gola, era admirada pela inteligência e bondade.
Ao contrário de outras jovens da corte, N'Gola gostava de caminhar pela savana. Conversava com os pastores, ajudava os mais velhos e passava longas horas sentada à sombra dos imbondeiros.
Os anciãos diziam que a natureza a reconhecia como filha.
Certa manhã, durante uma viagem para visitar uma aldeia distante, uma tempestade inesperada cobriu a savana. O vento levantou nuvens de poeira e os membros da comitiva perderam-se uns dos outros.
Quando a tempestade terminou, a princesa tinha desaparecido.
Durante dias, guerreiros percorreram rios, florestas e montanhas.
Nada.
Semanas transformaram-se em meses.
Nada.
O reino mergulhou na tristeza.
Mas uma velha curandeira afirmou ter recebido uma visão.
Segundo ela, a princesa estava viva e tinha sido protegida pelo mais antigo dos imbondeiros da região.
Os guerreiros seguiram a indicação.
Depois de uma longa viagem, encontraram uma árvore gigantesca no centro da savana. O tronco era tão vasto que parecia uma fortaleza.
Ao aproximarem-se, ouviram uma voz.
Era N'Gola.
A princesa estava abrigada numa cavidade natural do imbondeiro, onde sobrevivera graças à água acumulada no tronco e aos frutos que encontrava nas redondezas.
Quando regressou ao reino, contou algo extraordinário.
Disse que, durante o tempo em que esteve desaparecida, ouvira histórias vindas do interior da árvore. Histórias dos povos antigos, dos animais da savana e dos antepassados que haviam construído o reino.
Ninguém soube explicar o que realmente aconteceu.
Mas desde então aquele imbondeiro passou a ser conhecido como o Guardião da Princesa.
A lenda afirma que, sempre que alguém se perde na vida — não apenas nos caminhos da terra, mas também nos caminhos do coração — pode encontrar orientação junto de um velho imbondeiro.
Porque algumas árvores não mostram apenas o caminho de regresso.
Mostram também quem realmente somos.
Hoje, a história da Princesa Perdida da Savana continua a ser contada em várias versões, lembrando que a natureza, tantas vezes vista apenas como paisagem, também ocupa um lugar central na memória e na identidade dos povos angolanos.

Fontes:
– Tradição oral angolana
– Narrativas populares sobre o baobá
– Estudos sobre simbolismo da árvore da vida em Angola
REAT, Rádio Estudantil Angolana de Transmissões.

terça-feira, 7 de julho de 2026

PORTUGAL NOS HIMALAIAS


Estamos em 1624.
Os jesuítas portugueses António de Andrade e Manuel Marques partiram de Agra, no norte da Índia mogol, integrando discretamente uma peregrinação hindu que seguia em direção aos Himalaias e ao Tibete.
A viagem tinha como objetivo alcançar o interior do Tibete, estabelecer contacto com os reinos himalaios e investigar a existência de antigas comunidades cristãs orientais referidas em tradições conhecidas no Oriente português.
A missão procurava igualmente abrir relações diplomáticas e religiosas com as autoridades tibetanas.
A travessia realizou-se através de regiões de altitude extrema, superiores a cinco mil metros, por caminhos cobertos de neve e gelo, ravinas profundas e trilhos estreitos abertos nas encostas das montanhas himalaias.
Nas cartas de António de Andrade são descritas passagens onde os viajantes avançavam “pé ante pé”, apoiando-se com as mãos nas rochas para evitar a queda nos precipícios.
O missionário português descreveu aquelas serras como das “mais fragosas e altas” que poderiam existir no mundo conhecido.
Os dois clérigos da Companhia de Jesus integraram discretamente a peregrinação hindu porque a viagem implicava riscos extremamente elevados. Tratava-se de regiões de circulação controlada, territórios politicamente sensíveis, fronteiras montanhosas difíceis e forte suspeição sobre estrangeiros europeus.
Eram missionários cristãos católicos inacianos atravessando espaços hinduístas, islâmicos e budistas numa das mais perigosas rotas de montanha do mundo conhecido no século XVII.
Os corajosos missionários seguiram camuflados entre os peregrinos, usando vestes locais sobre a roupa que traziam dos territórios do Império Mogol.
A subida realizou-se em condições extremas através de neve contínua, rarefação do ar e trilhos onde homens e animais caminhavam no limite da resistência física.
António de Andrade e Manuel Marques alcançaram finalmente o reino tibetano de Guge, no Tibete ocidental, cuja capital se situava em Tsaparang.
Os sacerdotes jesuítas estabeleceram contacto com o rei tibetano Tri Tashi Dragpa, que inicialmente recebeu os portugueses com prudência, mas também com curiosidade diplomática e interesse nas ligações ao mundo exterior. António de Andrade procurava autorização para fundar missão cristã, estudar a região e estabelecer relações religiosas e políticas com o reino tibetano.
As expedições portuguesas ao Tibete decorreram entre 1624 e 1626.
Manuel Marques continuou ligado à missão tibetana em Tsaparang.
António de Andrade regressou posteriormente à Goa portuguesa, então administrada pelo vice-rei Miguel de Noronha e Sousa,
IV Conde de Linhares (Linhares da Beira);
e vice-rei da Índia portuguesa entre 1629 e 1635.
O contexto de todo o sacerdócio de D. António Andrade foi no reinado filipino de Filipe III de Portugal, correspondente a Filipe IV de Castela (o último rei da união Ibérica antes da Restauração da Pátria em 1640).
Depois das expedições aos Himalaias, Dom António de Andrade assumiu cargos de elevada responsabilidade em Goa, nomeadamente como Provincial da Companhia de Jesus na Índia e reitor do Colégio de São Paulo de Goa.
Em 1634, quando preparava uma nova expedição ao Tibete, Dom António de Andrade morreu subitamente em Goa, a 19 de março, existindo suspeitas contemporâneas de envenenamento num contexto de forte tensão política e religiosa no Estado Português da Índia.
Sobre o padre Manuel Marques, existem registos missionários que o localizam em Chaparangue ainda em 1642, já após a Restauração da Independência de Portugal sob D. João IV.
Quatro séculos depois, a histórica missão portuguesa dos Himalaias continua a representar um dos mais impressionantes episódios de resistência humana e contacto entre civilizações protagonizados por portugueses.

em : Associação Pátria Amada Lusitana

terça-feira, 23 de junho de 2026

PENHA GARCIA E UM CASTELO TEMPLÁRIO ERGUIDO SOBRE O FUNDO DE UM MAR



Muito antes de existir Portugal, muito antes de se erguerem muralhas nesta fronteira, já existia aqui um mundo desaparecido!...
Onde hoje vemos penhascos, um castelo e uma aldeia agarrada à rocha, existiu em tempos remotos, o fundo de um oceano. Centena de anos depois, sobre essas mesmas pedras, ergueu-se uma fortaleza ligada à defesa do território e à presença templária na raia.


Em poucos lugares o tempo se deixa ver de forma tão brutal: Primeiro, a memória da Terra; depois, a memória dos homens.
Penha Garcia é um desses lugares raros, onde o tempo da geologia e da História se encontram frente a frente.
Penha Garcia impõe-se na paisagem como um lugar de vigia…


A aldeia desenvolveu-se sobre uma crista rochosa, dominante, um ponto natural de controlo sobre o vale do rio Pônsul e sobre a região envolvente.
A povoação tem origens antigas, com vestígios de ocupação remota muito anteriores à Idade Média, mas foi no contexto da consolidação do reino português e da organização da fronteira que Penha Garcia ganhou verdadeiro relevo estratégico.
Penha Garcia não é apenas um núcleo histórico preservado, é um lugar onde a própria matéria da paisagem entrou na construção da aldeia.
Os quartzitos da Serra aparecem nas casas, nos muros, nos socalcos, nos caminhos. Tudo parece nascer da mesma rocha.


Ao mesmo tempo, a memória raiana, da ruralidade das tradições locais continua presente na identidade cultural da povoação, moldada por séculos de relativo isolamento e por uma forte ligação ao património oral da Beira Interior.
O grande símbolo monumental de Penha Garcia é, sem dúvida, o seu castelo. Implantado num ponto altíssimo e escarpado, domina o vale e parece prolongar a própria crista quartzítica sobre a qual assenta.
A fortificação que hoje vemos corresponde sobretudo à época medieval, muito provavelmente com intervenção templária, e integra-se numa lógica defensiva mais ampla, articulada com outras fortalezas da região.
Mais do que a dimensão das suas estruturas, impressiona a forma como o castelo se funde com a paisagem. A rocha torna-se muralha e a muralha parece uma continuação da montanha.


Dali, o olhar abrange o vale encaixado do Pônsul, as escarpas abruptas e a vastidão de Beira raiana. É fácil imaginar sentinelas a observar movimentos à distância, atentos a qualquer sinal vindo da fronteira. Esta paisagem impressionante foi o resultado de um processo geológico imenso, feito de sedimentação marinha, enterramento, deformação tectónica, elevação e erosão.
Há cerca de 480 milhões de anos, no período Ordovício, esta região encontrava-se submersa por um mar pouco profundo. Não havia montanhas, nem castelos, nem sequer via terrestre complexa como a conhecemos hoje. Existia um fundo oceânico onde se acumulavam areias e lodos, num ambiente habitado por diversos organismos marinhos. É nesse antigo fundo marinho fossilizado que Penha Garcia guarda um dos seus tesouros mais célebres: Os icnofósseis, ou seja, vestígios de actividade de seres vivos preservados na rocha.
Com os grandes movimentos tectónicos que afectaram a Península Ibérica, essas camadas foram dobradas, erguidas e colocadas em posição vertical. O que era fundo oceânico passou a formar serras e escarpas.
O resultado é extraordinário. Ainda hoje podemos seguir na rocha, o trajecto de animais que viveram há quase quinhentos milhões de anos. Nalguns casos, essas marcas revelam não apenas movimento, mas comportamento.
Em Penha Garcia, a abundância, dimensão e qualidade de preservação destes vestígios fazem do local uma referência internacional no estudo dos icnofósseis do Ordovício. É como se o antigo fundo oceânico tivesse guardado não apenas a presença da vida, mas um fragmento da sua acção. E é precisamente aqui em Penha Garcia se torna verdadeiramente única. Porque nesta paisagem cruzam-se duas profundezas de tempo quase impossíveis de conciliar à primeira vista.
De um lado, o tempo geológico, imenso, silencioso, anterior a qualquer memória humana, quando trilobites percorriam os fundos marinhos de um planeta irreconhecível.
Do outro, o tempo histórico, mais breve mas igualmente intenso, marcado por castelos, forais, fronteiras, ordens militares e pela lenta construção de Portugal.


Neste lugar, essas duas histórias não estão separadas, tocam-se. O castelo medieval ergue-se sobre rochas que começaram por ser sedimentos marinhos; as muralhas da fronteira assentam sobre a memória de um oceano desaparecido, e a aldeia, no interior mais profundo do país, lembra-nos que esse território, hoje tão distante do mar, já foi o fundo de um mundo oceânico submerso.


Talvez seja por isso que nos impressiona tanto. Porque aqui não vemos apenas uma paisagem ou um monumento. Vemos a paisagem do tempo em escala quase absoluta. Penha Garcia é, por isso, muito mais do que uma aldeia histórica da Beira Interior. É um lugar onde a Terra e a História se encontram de forma rara e poderosa.
Um lugar onde os rastos de trilobites convivem com a memória dos Templários. Onde a geologia prepara o cenário e os homens escreveram, depois, um novo capítulo sobre a mesma pedra. E onde o interior profundo de Portugal nos recorda, em silêncio, que até a mais firme fortaleza pode ter começado no fundo do mar.

https://www.youtube.com/watch?v=JD64lwH3cLc

Nota: Pesquisa num documentário “À Descoberta de Portugal”, resumo e imagens compostas por V. Oliveira

terça-feira, 9 de junho de 2026

CURIOSIDADE ENTRE DUAS ILHAS E FUSOS HORÁRIOS - Ilhas Diomedes



Há algo excepcionalmente estranho nas duas ilhas, a Grande Diomedes, localizada no extremo leste da Rússia, e a Diomedes Menor, localizada dentro das fronteiras dos EUA, que desafia a lei dos fusos horários.

São ilhas adjacentes e a distância entre elas é de apenas 4 km, mas há uma diferença horária de 21 horas entre elas.


Pode-se caminhar entre as duas ilhas durante o inverno quando a água está congelada, mas a grande diferença horária pode mudar eventos comuns de maneiras estranhas: quando é tarde na ilha russa, também é tarde na ilha americana, mas na ilha russa é tarde de hoje e na ilha americana é a tarde de ontem.

Se alguém que mora na ilha russa decidir ir «na tarde de segunda-feira, 1 de janeiro» visitar um amigo que vive na ilha americana, chegará na «no domingo 31 de dezembro».

Mas qual é a razão desta enorme diferença de horário?

Devido à localização privilegiada das duas ilhas, a Linha Internacional de Data (IDL) passa entre elas. É uma linha imaginária que atravessa o Oceano Pacífico e estabelece o fuso horário no mundo.


A Ilha Grande Diomedes está 21 horas à frente da Ilha Diomedes Menor, pelo que a primeira passou a ser chamada de Ilha de Amanhã e a segunda Ilha de Ontem.

Quem o desejar pode comemorar duas vezes a chegada do Ano Novo mobilizando-se a uma curta distância.



Nota: Compilação e arranjo feito por V. Oliveira

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

HISTÓRIA DA VILA DE TEIXEIRA DE SOUSA



Até 1927, o território onde nasceu a povoação Teixeira de Sousa, conhecido então por Luau (nome do rio fronteiriço), estava do “outro lado”, do lado dos Belgas. Com efeito, antes do tratado de Luanda de 1927, a fronteira de Angola ficava mais a oeste. O limite era marcado pelo Rio Luau e pelo Rio Cassai. Os postos militares portugueses mais próximos daquela zona estavam situados em território que já era Angola na altura.



O mais importante era Nana Candundo.
Em 10 de março de 1912, o Capitão António Braz assumiu o cargo de Capitão-mor de Nana Candundo. Nesta fase, o posto não tinha apenas funções militares, mas servia como centro administrativo e de representação do Governo-Geral de Angola junto das autoridades tradicionais (sobados).
A região era habitada por povos de origem Bantu, principalmente das etnias Cokwê (Quiocos), Lunda e Luvale. Estes grupos viviam em aldeias dispersas (libatas) sob a autoridade de chefes tradicionais conhecidos como Sobas. O nome “Luau” já existia antes da povoação portuguesa, referindo-se ao Rio Luau, que servia de fronteira natural e ponto de referência geográfico. Havia pequenos aglomerados populacionais junto ao rio que facilitavam o comércio e a travessia entre os territórios que hoje são Angola e a República Democrática do Congo.
No contexto da delimitação das fronteiras de Angola, e do planeamento e construção dos Caminhos de Ferro de Benguela até à fronteira leste, foram as missões de reconhecimento de natureza diplomáticas e de engenharia que levaram à assinatura do Tratado de Luanda de 1927, um marco fundamental na consolidação do território de Angola.
Essas missões tiveram os seguintes objetivos: garantir que o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) pudesse chegar à fronteira do Congo Belga pelo caminho mais curto e eficiente; identificar os limites naturais (rios como o Kassai, Luau e Luakano) para definir a nova fronteira; estudar a qualidade dos solos e a presença de minérios na região da Lunda, para justificar a importância estratégica da troca territorial; preparar o terreno para a instalação de postos alfandegários e administrativos logo após a ratificação do tratado.
As figuras centrais nestas negociações e nos estudos geográficos foram:
A) Coronel António Vicente Ferreira, que exercia as funções de Alto-Comissário (Governador-Geral) de Angola entre 1926 e 1928. Engenheiro militar e político, foi o principal estratega por trás da troca de territórios. Negociou diretamente com os belgas a cedência da região de Mia (no estuário do Zaire, a norte) em troca da região estratégica que ficou conhecida por “Bota do Dilolo” no leste.
B) Carlos de Roma Machado: Tenente-coronel de engenharia que integrou delegações e missões de estudos luso-belgas. O seu trabalho técnico em cartografia e engenharia foi essencial para fundamentar a viabilidade do traçado ferroviário e a demarcação das novas fronteiras. Carlos Roma Machado foi também uma figura central na criação da cidade de Huambo, em 1912.
C) Lopes Galvão: Coronel e engenheiro que também colaborou nos estudos técnicos sobre a expansão das infraestruturas e a ocupação do interior.
Antes do Tratado de Luanda de 1927, a fronteira leste de Angola não possuía a saliência geográfica hoje conhecida como a “Bota do Dilolo”. A linha de demarcação era mais “reta” e toda a região do Dilolo e as margens do Alto Luau estavam sob soberania belga, incluindo o território que hoje compreende o município do Luau.
No Noroeste (Zaire), Portugal detinha a região de Mia, uma área estratégica junto ao estuário do rio Zaire (perto de Matadi e Noqui), onde os belgas queriam expandir a sua linha férrea para evitar terrenos montanhosos difíceis.
Com a assinatura do Tratado de Luanda, os limites foram redefinidos para o traçado que conhecemos hoje: Portugal cedeu à Bélgica o território de Mia no noroeste de Angola (apenas cerca de 3 km²), porque os belgas precisavam desesperadamente daquele pequeno terreno para expandir o porto e a linha férrea deles que ligava Léopoldville (Kinshasa) ao mar. Em troca recebeu uma área de aproximadamente 3.500 m2, no leste, a “Bota do Dilolo”, onde a fronteira passou a ser definida pelo curso do Rio Luau e pelo Rio Kassai, empurrando o limite de Angola mais para leste e permitindo que o Caminho-de-Ferro de Benguela chegasse à fronteira por um caminho mais plano e direto.

Foi uma das trocas territoriais mais desproporcionais da história colonial (3.500 km² por 3 km²), considerada uma vitória diplomática para Portugal, pois garantiu o controlo sobre uma via vital de transporte de minérios do Katanga (Congo) para o porto de Lobito, em Angola.
A partir de 1928, a instalação de um posto administrativo moderno e da estação, consolidou a povoação civil que cresceria com o Caminho de Ferro de Benguela, denominada Teixeira de Sousa, em honra do médico e ex-ministro do Ultramar.
Mas foi depois de 1956 , no contexto de um conjunto de reformas administrativas levadas a efeito pelo governo de Angola, que se deu a elevação de Teixeira de Sousa à categoria de vila, através do Diploma Legislativo n.º 2757, publicado no Boletim Oficial de Angola em 28 de agosto de 1956. Na mesma altura, outras localidades angolanas,como Ndalatando, a antiga Vila Salazar, e Sumbe, a antiga cidade de Novo Redondo, foram elevadas a novas categorias urbanas.
A partir desse ano, Teixeira de Sousa conheceu grande impulso urbanístico, com o governo colonial a investir na urbanização de “estilo europeu” para atrair funcionários administrativos e técnicos dos caminhos de ferro para uma zona tão isolada.


A ordenação heráldica das armas, bandeira e selo da localidade foi estabelecida através da Portaria n.º 22667, publicada no Diário do Governo n.º 104, 1.ª Série, em 2 de maio de 1967: 
Escudo: De vermelho, com uma granada flamejante de ouro. 
Bordadura: De prata, carregada com sete escudetes de azul (cada um com cinco besantes de prata), representando a ligação à Coroa Portuguesa. 
Coroa Mural: De prata, com quatro torres (estatuto de vila). 
Listel: Branco, com a designação “VILA DE TEIXEIRA DE SOUSA” em caracteres negros. 
Bandeira: Esquartelada de branco e azul. 
Este brasão foi utilizado até à independência de Angola em 1975, quando a localidade foi renomeada para Luau e os símbolos coloniais foram substituídos pelos símbolos nacionais da República de Angola.
in
https://ombilaiongombe.wordpress.com/2026/04/12/vila-teixeira-de-sousa-a-ultima-estacao-dos-c-f-b-em-solo-angolano/

terça-feira, 12 de maio de 2026

PÊRO DA COVILHÃ


 

Com cerca de 18 anos, a desenvoltura de Pêro da Covilhã impressionou um espanhol que no momento visitava a Covilhã para comprar tecidos e, teve em mente convidá-lo para servir o seu amo, D. Juan de Guzmán, irmão do Duque de Medina-Sidonia, um dos mais conceituados fidalgos de Sevilha.

E Pêro aceita a proposta…partindo para Sevilha, onde lhe fora atribuído o papel de espadachim.

Surpreendido com a estatura de Pêro da Covilhã, D. Juan de Gusman convida-o a participar nas embarcações do seu irmão, o Duque, conhecido também como o Pirata Espanhol. Mas Pêro recusa a oferta e, em 1474, acompanha D. Juan a Lisboa para um encontro com D. Afonso V de Portugal.

D. Afonso V interessou-se por Pêro da Covilhã conhecendo o seu domínio de línguas, prioritariamente a língua árabe. E D. Juan cede a el-rei os serviços do português. É assim que Pêro da Covilhã, com 24 anos, é admitido como moço de esporas de D. Afonso V, e nomeado escudeiro, com direito a armas e cavalo.

Em 1476 acompanha D. Afonso V na batalha de Toro, na tentativa fracassada de D. João de reclamar o trono de Castela, já que era cunhado de Henrique IV de Castela. Mais tarde, acompanhou D. Afonso na jornada a França para pedir auxílio ao rei Luís XI na luta pelo trono de Castela, que seria rejeitado.

Entretanto, D. Afonso V abdica do trono, para D. João II.

E assim D. João II, para estabelecer relações diplomáticas com a suposta "Terra do Preste João”, convida Pêro da Covilhã a partir por terra até à Etiópia prosseguindo a rota em direcção à Índia.

MISSÃO NO ORIENTE



Em 1487, D. João II envia-o juntamente com Afonso de Paiva em busca de notícias do mítico reino do Preste João e, da Índia. E disfarçados de mercadores e treinados por cosmógrafos régios e pelo rabino de Beja que lhes terá indicado as portas da cidadela, no Cairo, partem a cavalo a 7 de Maio de Santarém  (onde estava a Corte), rumo a Valência.

Atravessam o sul da Península Ibérica até Barcelona, onde chegam a 14 de Junho. Daí, uma nau levou-os até Nápoles em dez dias e, daqui até ao arquipélago grego noutros dez dias. Desembarcam na ilha de Rodes, que pertencia à Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, repousando em casa de frades portugueses.

Rodes seria a última terra cristã que pisariam. Daí, rumaram para Alexandria, no Egipto, cuja religião predominante era o islamismo, onde compraram algumas mercadorias para o seu disfarce de mercadores. Depressa adoeceram com as chamadas "febres do Nilo", quase morrendo. O naíbe, lugar-tenente do Sultão, toma-lhes as mercadorias dando-os por mortos e sem descendentes. Porém, ambos recuperam e o naíbe restitui-lhes o valor das mercadorias. A partir daí tentam reproduzir o trajecto das especiarias no sentido oposto: rumo a Roseta de cavalo e de barco ao Cairo. Juntam-se a uma caravana que, percorrendo o deserto pela margem oriental do Mar Vermelho, vai cruzar a Arábia, rumo a Adem, às portas do Oceano Índico; passam pelo Suez, Tor, o deserto do Sinai, Medina e Meca, a cidade sagrada do Islão, onde tiveram que fazer penitência e rezar ao profeta Maomé, para manter o disfarce.

Chegam a Adem já no ano de 1488 e aí se separam com reencontro combinado no Cairo, junto à porta da cidadela, durante o anoitecer de um dos primeiros noventa dias de 1491; Afonso de Paiva ruma à Etiópia em busca do Preste João, e Pêro da Covilhã vai para a Índia.

Pêro chega em Novembro de 1488 a Calecute, um dos pequenos reinos da Índia actual. Aí terá conhecido um mercador que lhe terá explicado o percurso das especiarias; terá indicado a existência do Ceilão, de onde vinha a canela, e da Malásia, a noz-moscada, e o papel de Calecute em todo o processo. Era aqui que afluíam as especiarias, prontas para embarcar rumo ao Mar Vermelho (e, posteriormente, para Veneza).

Na sede de melhor saber, Pêro visita Cananor, Goa e Ormuz, na costa do Malabar, confirmando que o movimento comercial era, de facto, inferior ao de Calecute.

Em Dezembro de 1489 parte Pêro da Covilhã de Ormuz rumo à costa oriental de África. Visita Melinde, Quíloa, Moçambique e, finalmente, Sofala, registando os entrepostos comerciais dos mouros. Pêro da Covilhã regista, assim, que uma vez dobrado o fim da África (mais tarde designado do Cabo das Tormentas), bastará atingir Sofala ou Melinde e facilmente se alcançaria Calecute. Será com base nesta anotação que Vasco da Gama decidiu atravessar o Oceano Índico directamente para Calecute, na sua pioneira expedição marítima à Índia.

A 30 de Janeiro de 1491, Pêro da Covilhã dirige-se às portas da cidadela do Cairo, conforme combinado e, em vez de Afonso de Paiva, encontra o Rabi Abraão (o rabino de Beja) e um outro judeu português, José de Lamego, que lhes comunicam que Afonso de Paiva teria falecido ali no princípio do mês, mas que falecera de peste sem poder contar as suas viagens ou aventuras, da notícia do nascimento do seu filho, que Catarina baptizou de Afonso, em homenagem ao rei, e do feito de Bartolomeu Dias, que tinha dobrado o Cabo das Tormentas, agora designado Cabo da Boa Esperança.

Mas el-Rei D. João II teria pedido ao Rabi Abraão que fosse confirmar a importância de Ormuz, segundo relatos de José Lamego, que desconhecia que importante era Calecute, e não Ormuz.

Assim, Pêro redige o relatório para o rei, que seria entregue por José Lamego, e parte para Ormuz com o Rabi. Aí, Pêro da Covilhã deixa o Rabi e regressa a Adem, para saber notícias do Preste João, já que Afonso de Paiva não as pôde comunicar. Daí toma um barco até Zeilá, mas a sul, já na costa da Etiópia.

Etiópia             

Rico e bem acolhido pelo imperador Alexandre, descendente do Preste João, ali casou e teve filhos, vindo a morrer muitos anos depois. Constatou que afinal o mítico reino não era mais senão um pobre povo que tentava evitar ser esmagado pelos vizinhos muçulmanos — não poderia valer Portugal de qualquer ajuda, mas sim a eles que teriam que ser ajudados na luta contra os infiéis.

Impedindo de sair por Nahu, irmão e sucessor de Alexandre, que entretanto morrera inesperadamente, e que alegava o costume de não deixar sair os forasteiros que entrassem no reino, recebe terras do soberano e aí se fixa como senhor feudal, casando novamente e de quem teria numerosa descendência.

Com a morte de Nahu, em 1508, Pêro da Covilhã é mantido como conselheiro régio da nova rainha Helena. É por sua indicação que a rainha envia o embaixador Mateus a Lisboa, acompanhando dois frades portugueses que ali apareceram, e de quem viria Pêro da Covilhã a saber da morte de D. João II, da ascensão de D. Manuel I, e dos sucessos de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

Recebeu, entretanto, a visita de alguns portugueses a quem terá dado notícias importantes. É, em 1521, encontrado pelo embaixador D. Rodrigo de Lima. O relato das suas viagens foi enviado ao padre Francisco Álvares pelo próprio Pêro da Covilhã, que o publicou na Verdadeira Informação das Terras do Peste João das Índias, que veio a ser editada em Lisboa, em 1540.

 

Nota: Pesquisa feita por V. Oliveira