terça-feira, 14 de abril de 2026

SOLDADO MILHÕES, O LAVRADOR TRANSMONTANO QUE ENFRENTOU UM EXÉRCITO


Em Abril de 1918, quando a Primeira Guerra Mundial arrastava a Europa para um dos seus capítulos mais sombrios, um jovem soldado português, franzino e analfabeto, tornou-se protagonista de um dos episódios mais extraordinários da história militar nacional.

Aníbal Augusto Milhais (1895 - 1970), natural de Valongo de Milhais (Murça), transformou‑se, numa única madrugada, no herói que os portugueses apelidariam para sempre de "Soldado Milhões" — “porque valia milhões”, como diria o comandante que o distinguiu oficialmente após o combate.

Milhais era um trabalhador agrícola habituado à dureza do campo transmontano. Alistou‑se no Exército em 1915 e, dois anos depois, integrou o Corpo Expedicionário Português (CEP), sendo destacado para a frente de batalha na Flandres, como membro da 2.ª Divisão de Infantaria. A participação portuguesa na guerra era marcada por falta de recursos, cansaço extremo e escassos meios logísticos, num sector onde se acumulavam baixas muito antes de qualquer grande batalha.

La Lys: o dia em que Milhais mudou o destino de centenas

A 9 de Abril de 1918, os alemães lançaram a ofensiva da Primavera — conhecida entre os portugueses como Batalha de La Lys — esmagando posições aliadas na região de Estaires. O CEP, que deveria ter sido substituído nessa mesma manhã, enfrentou sozinho o impacto inicial da ofensiva. Em poucas horas, o contingente português sofreu quase 14 mil baixas entre mortos, feridos e prisioneiros, num dos maiores desastres militares da participação lusa no conflito.

Foi nesse cenário de colapso generalizado que Aníbal Milhais recusou abandonar a sua posição. Armado com uma metralhadora Lewis, de 12,7 kg, que manejava com rara precisão, manteve fogo contínuo sobre duas colunas alemãs, assegurando a retirada de centenas de soldados portugueses e escoceses. A manobra, registada mais tarde pelos relatórios aliados, foi decisiva para evitar um massacre ainda maior.

Segundo os arquivos militares, Milhais deslocava‑se entre trincheiras, utilizando munições recolhidas de soldados mortos para prolongar o combate e criar a ilusão de que várias posições continuavam defendidas, quando na verdade combatia completamente sozinho.

Quatro dias perdidos entre fogo, lama e cadáveres

Quando já não tinha munições, Milhais retirou‑se, iniciando um percurso errante de quatro dias pelos campos devastados da Flandres. Alimentou‑se apenas das castanhas piladas que levava nos bolsos, bebeu água imprópria em valas e ribeiros e refugiou‑se entre cadáveres de animais para fugir às patrulhas alemãs. Durante esse período, ainda salvou um major médico escocês e ajudou civis que tentavam escapar de uma casa em chamas, factos confirmados mais tarde por testemunhos aliados.

Quando regressou finalmente ao acampamento português, sujo, esgotado e quase irreconhecível, muitos acreditavam estar perante um fantasma. Fora dado como morto dias antes.

Da glória militar ao regresso à terra pobre

O ato de coragem valeu‑lhe a Ordem da Torre e Espada, a mais alta distinção militar portuguesa, entregue no próprio campo de batalha — caso único na história da condecoração. Recebeu também distinções estrangeiras, incluindo a Legião de Honra francesa.

Mas a vida do herói não seguiu um caminho de glória permanente. Regressado a Valongo de Milhais após a guerra, encontrou a mesma pobreza e os mesmos campos áridos da infância. Casou, teve vários filhos e tentou emigrar para o Brasil em 1928. Os portugueses lá residentes, ao perceberem que o herói nacional vivia na miséria, angariaram fundos para o trazer de volta, considerando indigno que alguém com o seu legado fosse obrigado a sobreviver como emigrante pobre.

Em 1924, a povoação onde nascera passou oficialmente a chamar‑se Valongo de Milhais, em sua homenagem. O soldado viveu o resto da vida de forma simples, trabalhando a terra, sem nunca se vangloriar dos feitos que o tornaram lendário.

Milhais morreu no dia 3 de Junho de 1970, com 74 anos, na aldeia onde nascera. A sua história, porém, sobreviveu muito além da sua própria voz.

O herói que o país não esquece

O Soldado Milhões representou o que a Primeira Guerra raramente permitiu mostrar: a coragem individual num conflito monstruoso que esmagava vidas sem distinção. O seu episódio tornou‑se símbolo nacional e objecto de investigações, biografias, reportagens e de filmes — entre eles, a obra cinematográfica de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa: "Soldado Milhões" (2018), que reaproximou o público da figura que o país nunca deixou de reverenciar.

Entre os milhares de portugueses enviados para uma guerra distante, Aníbal Milhais destacou‑se não pela força física ou pela instrução, mas pela coragem incomum, pela resistência e pelo altruísmo que salvou vidas quando tudo parecia perdido

Pequeno em estatura, gigante em bravura: o soldado que valia milhões continua a ocupar um lugar único na memória de Portugal.

 


Nota: Pesquisa e composição feita por V. Oliveira

 

 


terça-feira, 31 de março de 2026

ANTÓNIA RODRIGUES – A JOANA D´ARC PORTUGUESA


Antónia Rodrigues, nascida a 5 de Janeiro de 1572, foi uma figura aveirense cuja vida viria a destacar-se pela coragem e pelos feitos militares alcançados no Norte de África.

O documento partilhado aqui corresponde ao seu assento de batismo, lavrado na antiga paróquia de São Miguel e preservado no acervo do Arquivo Distrital de Aveiro.

Filha de Simão Rodrigues e Leonor Dias, nasceu numa família humilde e ligada ao mar e, reza a lenda que, com cerca de 13 anos, decidiu cortar o cabelo, vestir-se como rapaz e adotar o nome António Rodrigues, embarcando como grumete rumo a Mazagão, então praça portuguesa em território marroquino.


A sua bravura rapidamente se tornou notória. Integrou a infantaria local, combateu em várias ações militares e destacou-se pela destreza no manejo das armas. A rapidez com que ganhou reconhecimento levou-a à cavalaria, onde comandou ataques e frustrou investidas inimigas. A reputação que construiu valeu-lhe os epítetos de “Cavaleira Portuguesa”, “Amazona de Mazagão” e “Terror dos Mouros”, tornando-se uma das figuras femininas mais singulares da história militar portuguesa.


A revelação da sua real identidade, a qual se viu forçada após vários anos ao serviço, apenas reforçou a admiração que lhe era dedicada. Terá casado com nobre cavaleiro e, retornada ao país de origem, viu os seus serviços reconhecidos pela Coroa, recebendo mercês e distinções.


Pouco se conhece sobre os seus últimos anos de vida, mas a memória da sua determinação permanece viva, enriquecida pela confirmação documental da sua data de nascimento, identificada em 2020 pelo historiador Francisco Messias.

Registos paroquiais para genealogia – Torre do Tombo


Nota: Pesquisa ocasional feita nos arquivos da Torre do Tombo por, Vítor Oliveira


terça-feira, 17 de março de 2026

A MULHER QUE ESPEROU NA ESTAÇÃO ATÉ O TEMPO SE RENDER


Rússia, 1917 – 1932

Não importavam o frio, a guerra, a fome ou os rumores. Todas as manhãs, ela caminhava até a estação de uma pequena cidade ao sul de Moscovo, sentava-se no mesmo banco de madeira e fixava os olhos nos trilhos — como se eles ainda guardassem uma promessa intacta. 
No início, diziam que ela esperava o marido. 
E diziam a verdade. 
Ivan fora enviado para a guerra em 1917, quando a guerra ainda parecia distante, quase gloriosa. Prometeu voltar em breve. Prometeu escrever. Prometeu que a separação seria curta. 
Anna acreditou em cada palavra. 
Nos primeiros meses, as cartas chegaram. Depois, o silêncio. Mais tarde, listas de desaparecidos. Ninguém confirmou a morte. Ninguém confirmou a sobrevivência. Ivan ficou preso no lugar mais cruel que existe: a incerteza.

“Se não há corpo, há esperança”, disseram-lhe.
E Anna agarrou-se a isso como quem se agarra a uma tábua no meio do naufrágio.
Quando a guerra terminou, muitos voltaram. Homens magros, quebrados, com olhos que pareciam ter visto demais. Ivan não estava entre eles. Os vizinhos começaram a aconselhá-la: que refizesse a vida, que ainda era jovem, que esperar tanto tempo era inútil.
“O tempo não traz ninguém de volta”, diziam. 
Mas Anna não esperava pelo tempo. 
Esperava por Ivan. 
Os anos passaram. Veio a revolução. O país mudou. Mudaram os nomes, as placas, o medo. Anna continuou a ir à estação.

Havia dias sem trens. Outros, com vagões cheios de estranhos. Ela examinava cada rosto sem ansiedade, sem pressa — como alguém que sabe exactamente quem procura.

Com o tempo, deixou de se arrumar. Depois, deixou de se importar com os olhares. Tornou-se parte da paisagem. “A mulher da estação”, passaram a chamá-la. 
Crianças cresceram vendo-a ali. Adultos desviavam o olhar, desconfortáveis. Ela lembrava algo que ninguém queria encarar por muito tempo: que nem tudo se resolve, que nem tudo termina. 
Em 1925, um funcionário local sugeriu que ela parasse. 
“Não é saudável”, disse. “O Estado não reconhece esse tipo de espera.” 
Anna olhou para ele sem raiva. 
“O Estado não se casou com isso”, respondeu. 
E continuou indo. 
O corpo envelheceu mais rápido que a convicção. Os passos ficaram lentos. Sentar-se exigia esforço. Ainda assim, não faltou um único dia.

Num inverno especialmente rigoroso, ela adoeceu e passou semanas de cama. Quando voltou à estação, encontrou o banco ocupado. Não reclamou. Ficou em pé. 
O homem levantou-se sem que ela pedisse. 
Em 4 de Maio de 1932, chegou um trem diferente. Mais curto. Mais silencioso. Poucos passageiros desceram. Entre eles, um homem magro demais, cabelos prematuramente brancos, apoiado numa bengala improvisada. 
Anna conheceu-o imediatamente. 
Ela não correu. 
Não gritou. 
Não hesitou. 
Levantou-se e caminhou até ele. 
Ivan demorou alguns segundos para reconhecê-la. Quinze anos transformam qualquer rosto. Mas, quando compreendeu, deixou a bengala cair. 
— Pensei que você não viria — murmurou. 
Anna balançou a cabeça, com calma. 
— Pensei que você demoraria um pouco. 
Ivan passara anos num campo de prisioneiros de guerra. Não pôde escrever. Não pôde voltar. Não morreu — mas também não viveu de verdade. 
Ninguém o procurou. 
Excepto ela.


Viveram juntos apenas mais três anos. Pouco tempo, para alguns. Suficiente, para Anna. 
Quando Ivan morreu, alguns vizinhos disseram que ela desperdiçara a vida esperando. 
Anna nunca concordou. 
— Eu não esperei — disse. — Eu escolhi. 
E talvez essa seja a parte mais perturbadora da sua história: 
Às vezes as pessoas não ficam porque não podem ir embora, mas porque escolhem amar sem garantias.

Anna Ivanovna morreu sabendo algo que estatísticas e conselhos bem-intencionados jamais capturam: 
Que o tempo pode desistir — mas nem sempre tem a última palavra!...


Nota: Texto pesquisado e trabalhado por V. Oliveira

 

 

 


terça-feira, 3 de março de 2026

CROMELEQUE DOS ALMENDRES


Conhecer Portugal por dentro…

Sugiro uma visita ao Alto Alentejo, região de Évora, onde se encontram inúmeros vestígios de monumentos megalíticos. E para uma primeira abordagem, porque não…visitar o Cromeleque dos Almendres, situado na Serra de Monfurado, entre Montemor-O-Novo e Évora!

É um monumento megalítico constituído por dois conjuntos de menires dispostos em círculos concêntricos, com diferentes formas e dimensões, alguns cilíndricos, outros esféricos ou de aspecto estelar.

Estes menires formaram dois recintos erguidos em épocas diferentes, geminados e orientados segundo os equinócios. O mais antigo definia-se por dois ou três círculos concêntricos de monólitos de pequena dimensão, ao qual se associou mais tarde, no lado ocidental, um outro composto por duas elipses concêntricas com menires de grandes dimensões.


Mais tardiamente ambas as estruturas sofreram assinaláveis modificações, tendo o recinto inicial sido transformado numa espécie de átrio que orientaria e solenizaria os rituais mágico-religiosos ali praticados.

Um dos menires (o 57) tem insculpidas 13 representações de báculos. O menir seguinte (o 58), situado na extremidade norte do eixo mais pequeno do recinto, mostra-nos 3 imagens solares radiadas.

Assim, este conjunto megalítico dos Almendres estaria ligado às observações astronómicas e previsões astrológicas, como também a cultos ligados à fecundidade. Estes cultos são sugeridos pelo falomorfismo de alguns dos menires presentes. O recinto terá sido desactivado durante a época do calcolítico.


Nota: Este aglomerado tem mais menires e é mais velho do que o célebre Stonehenge, em Inglaterra!...

Texto trabalhado por V. Oliveira


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A ESTÁTUA DA ILHA DO CORVO


A Ilha do Corvo, nos Açores, foi descoberta (ou potencialmente redescoberta), pelos Portugueses por volta do ano de 1452.

Quando os portugueses lá chegaram não encontraram vivalma na ilha, e supuseram, de uma forma muito natural, que nunca ninguém lá tivesse vivido. Até que, com o passar dos anos, foi encontrada uma estátua no local.

Damião de Góis nunca a viu na primeira pessoa, mas dá-nos alguma informação sobre ela:

Representava um homem a cavalo, com o cabelo descoberto, e que, com o indicador direito, apontava para oeste. Por baixo da estátua estava uma inscrição, já muito apagada, em caracteres que não eram latinos e que ninguém conseguiu compreender.

A estátua, e a respectiva base, estavam colocadas num local de muito difícil acesso, só tornado acessível ao fazer descer homens com cordas para o local.


O Rei Dom Manuel (monarca entre 1495 e 1521) mandou fazer uma imagem da estátua. Posteriormente, o mesmo rei mandou também removê-la do local, presumivelmente para a trazer para Portugal, mas ela já estava muito danificada e partiu-se em muitos pedaços. Os seus restos foram trazidos para o país, entregues ao rei, e após esse momento desapareceram da história.

A acreditar no que foi reportado no século XVI, já alguém teria passado pela ilha antes da sua (re)descoberta pelos Portugueses em 1452 e até sentido a necessidade de deixar um vestígio da sua presença no local!...


Nota: Pesquisa em “Lendas históricas e tradicionais portuguesas” feita por V. Oliveira


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

MOSTEIRO DE SANTA MARIA DA FLOR DA ROSA - PRIOR DO CRATO


A LENDA

«Havia em tempos muitos antigos um pequeno lugarejo, onde vivia um cavaleiro de nome ilustre, muito estimado por fidalgos e pelo povo.

Mas este cavaleiro adoeceu gravemente e soube-se que poucos dias lhe restavam. Como era muito estimado, iam-lhe levar presentes. Entre as pessoas que o visitavam, uma chamada Rosa levou-lhe uma flor do seu nome.

Foi para o cavaleiro a melhor visita e a mais bela prenda, pois ROSA era sua noiva.

Todas as pessoas esperaram a morte do cavaleiro, mas o destino é por vezes traiçoeiro e foi ROSA que morreu, tendo-se ele salvo.

Desde esse dia, o cavaleiro era muitas vezes encontrado a chorar junto da campa da sua noiva. Então os desgostos matam-no. Mas nos últimos momentos da vida faz dois pedidos:

Queria que a flor que ROSA lhe oferecera o acompanhasse à sepultura e que fosse dado àquele lugar o nome de FLOR DA ROSA em homenagem à sua amada».

HISTÓRIA

Este Mosteiro foi mandado construir em 1356 por D. Álvaro Gonçalves Pereira, primeiro Prior do Crato e pai do Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira.

Embora seja comum apontar-se Flor da Rosa como local de nascimento de Nuno Álvares Pereira, não há qualquer evidência histórica que confirme essa hipótese e, pelo contrário, a maioria dos historiadores aponta que tenha nascido em Cernache do Bonjardim.

Em 1232 o Rei D. Sancho II doou a povoação do Crato à Ordem dos Hospitalários. Foi em 1340 que a sede da Ordem do Hospital foi alterada de Leça do Bailio ou de Belver, para o Crato, tendo logo o Prior do Crato,  D. Álvaro Gonçalves Pereira, decidido fundar uma capela na localidade.

Com o crescimento da Ordem é então erguido este Mosteiro, casa-mãe da Ordem em Portugal, fundado em 1356. A partir do século XVI, a Ordem do Hospital passou a denominar-se Ordem de Malta, nome que ainda hoje conserva.


A ACTUALIDADE

Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa, também referido como Mosteiro da Ordem do Hospital de Flor da Rosa,  Igreja de Flor da Rosa,  Convento de Flor da Rosa,  Paço de Flor da Rosa e Pousada da Flor da Rosa, é considerado o mais importante exemplo de mosteiro fortificado existente na Península Ibérica.

É composto por três edificações distintas: a igreja fortaleza de estilo gótico, um paço acastelado gótico, já com alterações quinhentistas, e as restantes dependências conventuais já renascentistas e mudéjares.

O Mosteiro da Ordem do Hospital de Flor da Rosa foi classificado como Monumento Nacional em 1910 e, na década de 1940, começaram as obras de restauro. Mais tarde, em 1991 iniciam-se os trabalhos de reconversão para Pousada de Portugal.

Actualmente, o Mosteiro abriga o túmulo do fundador, uma pousada da Enatur e o Núcleo de Escultura Medieval do Museu Nacional de Arte Antiga.


 A FLOR DA ROSA É CONSIDERADA A EX-LIBRIS DO CONCELHO DO CRATO


Nota: Pesquisa feita por V. Oliveira

 

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CASTELO DE ALMOUROL


A LENDA

Nos primeiros tempos da Reconquista, um cavaleiro cristão chamado de D. Ramiro, regressava de combates contra os muçulmanos  com um certo orgulho pelas vitórias conseguidas, quando encontrou duas mouras - Mãe e Filha.

Trazia a jovem uma bilha com água que, assustada, deixou cair quando o cavaleiro rudemente lhe pediu para beber.

Enfurecido, acabou por tirar a vida às duas mulheres no momento em que surgiu um jovem mouro… filho e irmão das vítimas!...

Aprisionado, D. Ramiro levou o cativo para o seu castelo onde vivia com a própria esposa e filha, as quais o prisioneiro mouro logo planeou assassinar como represália.

Entretanto, se à mãe passou a ministrar um veneno de acção lenta, pela filha, acabou por se apaixonar. Filha, a quem o pai planeava casar com um cavaleiro de sua fé, não amado por ela!

O amor do mouro era mais correspondido pela jovem, que entretanto tomara conhecimento dos planos egoístas do pai. E, forçosamente, os apaixonados deixaram o castelo e desapareceram para sempre…

Reza a lenda que, nas noites de São João, o casal pode ser visto abraçado no alto da Torre de Menagem e, a seus pés, jaz no chão a implorar perdão, o cruel D. Ramiro!

A HISTÓRIA

A partir do século III, o sítio do castelo de Almourol foi ocupado por outros grupos; nomeadamente os Alanos, os Visigodos e os Muçulmanos, (estes últimos a partir do século VIII).

No século XII, a fortificação já existia por eles denominada como Al-morolan  (pedra alta). Estrabão, historiador grego, já tinha dado a denominação com o termo de “Moron”, referindo-se a uma cidade situada à beira Tejo!...

À época da Reconquista cristã da Península Ibérica, quando esta região foi ocupada por forças portuguesas, Almourol foi conquistado em 1129 por D. Afonso Henriques  (1112-1185) e, o Soberano entregou-o aos cavaleiros da Ordem dos Templários, então encarregados do povoamento do território entre o rio Mondego e o Tejo, e da defesa da então capital de Portugal,  Coimbra.

Sob os cuidados da Ordem, constituído em sede de uma Comenda, o castelo tornou-se um ponto nevrálgico da zona do Tejo, controlando o comércio de azeite,  trigo, carne de porco, frutas e madeira entre as diferentes regiões do território e Lisboa. Acredita-se ainda que teria existido uma povoação associada ao castelo, em uma ou em ambas as margens do rio, uma vez que, em 1170, foi concedido foral aos seus moradores.

A ACTUALIDADE

O Castelo de Almourol localiza-se na freguesia de Praia do Ribatejo do município de Vila Nova da Barquinha, distrito de Santarém.

Integra actualmente a região do Oeste e Vale do Tejo, em Portugal,  embora a sua localização seja frequentemente atribuída a Tancos, visto ser a vila mais perto e de onde se vislumbra melhor.

Ergue-se num afloramento de granito a 18 m acima do nível das águas, numa pequena ilha de 310 m de comprimento por 75 m de largura, no médio curso do rio Tejo.

E constitui um dos exemplos mais representativos da arquitectura militar da época, evocando simultaneamente os primórdios do reino de Portugal e a Ordem dos Templários, associação que lhe reforça a aura de mistério e romantismo.

Nota: Pesquisa feita por V. Oliveira