No dia do seu aniversário, celebramos a vida e o percurso de uma mulher cuja história se confunde com a própria história de resistência, cultura e identidade do povo do antigo Alto-Zambeze.
No coração da terra fértil do Moxico Leste, onde os rios contam histórias antigas e as tradições caminham de mãos dadas com a memória dos antepassados, ergue-se a figura digna e respeitada de Anabela Ngambo Kaumba, hoje conhecida como Rainha Nyakatolo - Ngambo II.
Filha de Jaime Kaumba e Laura Kainda, nasceu no dia 13 de Março de 1945, na vila histórica de Cazombo, no então município do Alto-Zambeze. Hoje, aos 81 anos, permanece solteira e reside em Nana Candundo, no bairro Nyakatolo, lugar onde a tradição se mantém viva.
A sua vida é um testemunho de coragem, sacrifício e compromisso com Angola.
No dia 5 de Agosto de 1962, com apenas 17 anos de idade, Anabela Ngambo ingressou nas fileiras do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, na Zona A, comuna de Lumbala-Kaquengue, acompanhando os seus pais no ideal de libertação da pátria.
Mas escolher a liberdade, naquele tempo, significava enfrentar o peso da perseguição colonial.
Em 1963, no momento em que as autoridades da administração colonial portuguesa descobriram o envolvimento da sua família com o movimento revolucionário, a repressão tornou-se dura. A família passou a ser constantemente vigiada e os seus passos controlados. O seu pai e os seus irmãos mais velhos foram presos pela PIDE-DGS e levados para as cadeias do Luau, acusados de colaborar com os movimentos de libertação. Mesmo assim, o espírito de resistência nunca se apagou.
Em 1964, depois de sucessivas perseguições, Anabela Ngambo e o seu irmão João Kayombo foram obrigados a refugiar-se na República da Zâmbia. Ali viveram primeiro na província de Kitwe-Chimbuluma e, posteriormente, na localidade de Kalombo. Foi exactamente no exílio que o compromisso com Angola se fortaleceu ainda mais, envolvendo-se directamente na causa através do movimento político.
Em 1974, com os acordos que anunciavam a retirada do regime colonial português e preparavam o caminho para a Independência de Angola, Anabela Ngambo foi seleccionada para integrar a primeira coluna de regresso ao país.
O grupo era comandado inicialmente por Kakunga, mais tarde substituído por Manhinga. Xieto exercia a função de Chefe do Estado-Maior, Rui de Matos era responsável pelas finanças e Jika desempenhava o papel de comissário do grupo.
Apesar do ambiente ainda instável e do conflito que viria a marcar o período pós-independência, o regresso simbolizava esperança, revelando um verdadeiro amor por estas terras de Angola.
No dia 7 de Fevereiro de 1975, Anabela Ngambo participou na recepção da primeira visita do Dr. António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, à vila de Cazombo.
Anabela também participou na recepção da segunda visita presidencial, realizada a 5 de Setembro de 1978.
Em 13 de Novembro de 1983, com a então ocupação do município do então Alto-Zambeze durante o conflito armado, Anabela e muitos outros habitantes foram novamente obrigados a refugiar-se na Zâmbia, onde permaneceu até ao cessar-fogo de 1992.
Apesar do tempo e dos momentos peculiares, a tradição continuou a guiar o destino da família Nyakatolo, como verdadeiros seguidores da família real descendente de Chinhama.
Em 2011, após o falecimento da regedora Mahongo Kakengue, foi novamente chamada pela tradição e pela confiança do povo para assumir o título de Regedora de Kakengue, função que exerceu durante doze anos.
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| Rainha Nyakatolo Chilombo |
Assim, no dia 9 de Setembro de 2024, foi oficialmente entronizada como a 6ª Rainha Nyakatolo - Ngambo II.
Uma mulher que carrega no olhar a memória dos seus antepassados e, nos ombros, a responsabilidade de preservar a identidade cultural do seu povo.
As circunstâncias da luta de libertação impediram que prosseguisse os estudos. A sua formação escolar terminou na 3ª classe, na Escola Evangélica de Sakamuengo, ainda no período colonial.
Desde antes da independência até aos dias actuais, Anabela Ngambo tem trabalhado incansavelmente pelo desenvolvimento de Angola, sobretudo na preservação, valorização e divulgação dos valores culturais e identitários do povo angolano.
Foi também uma voz activa na defesa da identidade histórica da nova província criada no processo de Divisão Político-Administrativa do país.
A vida de Rainha Nyakatolo – Anabela Ngambo é mais do que uma biografia. É um caminho feito de luta, tradição, resistência e liderança.
Uma mulher que atravessou a guerra, o exílio e as mudanças do tempo, sem nunca abandonar o compromisso com o seu povo.
Hoje, no silêncio respeitoso das terras do Moxico Leste, o seu nome ecoa como símbolo de dignidade, sabedoria e continuidade da cultura ancestral.
Neste mês dedicado às mulheres e, de forma especial, no dia do seu aniversário, o Governo Provincial do Moxico Leste felicita a soberana do povo Luvale, bem como as demais mulheres da província, manifestando profunda satisfação e empenho para que continuem a contribuir cada vez mais para o crescimento e desenvolvimento da jovem província.


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