Setenta quilómetros mágicos entre praias, arribas, cabos, fósseis de dinossauros e vestígios constantes de uma rica história humana.
A Grande Rota do Atlântico integra a Grande Rota Europeia que tem o seu início em São Petersburgo (Rússia) e atravessa os países vizinhos do oceano Atlântico. Em território nacional, apresenta-se como um percurso de mais de 900 quilómetros entre o cabo de São Vicente e a Nazaré.
No Oeste, pode ser percorrida entre o cabo Carvoeiro (Peniche) e a praia da Assenta (Torres Vedras), num passeio único com cerca de 70 quilómetros, onde o Atlântico é o principal companheiro de viagem.
Tendo a fauna e flora como atracções, é usual cruzarmo-nos com falcões, peneireiros, gaivotas, pilritos-das-praias, ou perdizes, mas também com coelhos ou raposas, que fazem parte do leque de espécies que podem ser avistadas. A vegetação por norma rasteira mostra-se através de algumas espécies endémicas como a arméria e o zimbro.
Quando pomos o pé na praia, conseguimos ver de perto ouriços-do-mar, anémonas, caranguejos, uma paleta diversificada de algas, lapas e mexilhões.
Numa paisagem muito marcada pela geologia, podemos caminhar sobre os campos de lapiás do cabo Carvoeiro e encontrar vestígios fossilizados de crinóides da espécie “Pentacrinus” penichensis. Estes fósseis em forma de estrela ficam na memória de quem por aqui passa e observa no horizonte o arquipélago das Berlengas, guardado pelo seu imponente farol.
A viagem continua para sul. Depois de atravessarmos um extenso cordão dunar, chegamos à praia da Consolação. Com um património geológico de referência, constituído pelo empilhamento de sedimentos do Jurássico Superior com mais de 150 milhões de anos, podemos encontrar registos de antigos recifes de coral e outros organismos, como bivalves e gastrópodes.
Este é o lugar que está associado à expressão popular dos “amigos de Peniche”, fruto da primeira tentativa de restaurar a independência portuguesa no século XVI.
Continuamos a nossa caminhada, agora numa paisagem onde as arribas jurássicas e as suas descontinuidades marcam a altimetria do percurso, juntamente com os campos agrícolas que conduzem ao Forte de Nossa Senhora dos Anjos de Paimogo. Este local místico acolheu há cerca de 150 milhões de anos algumas espécies de dinossauros e respectivos ninhos cujos fósseis podem ser visitados nos espaços museológicos do concelho da Lourinhã.
Este forte é um dos locais de referência pela paisagem deslumbrante, que oferece ao visitante um porto de abrigo natural, protegido pelo forte que serviu de ponto de vigia e de referência náutica nos séculos passados, e onde desembarcaram tropas inglesas durante a primeira invasão francesa no século XIX.
Com esta vista deslumbrante, olhamos para norte e vemos o cabo Carvoeiro onde esta jornada começou. Dali conseguimos identificar as silhuetas de mais de 30 quilómetros de praias protegidas por arribas de características únicas e distintas das demais. Além de protegerem os mais audazes do sol e do vento, estas arribas testemunham o nascimento do oceano Atlântico, um processo iniciado há 150 milhões de anos, onde grandes rios corriam de oeste e eram a casa de muitos dinossauros do Jurássico. Exemplo disso é a praia de Porto Dinheiro, onde foi descoberto um dos maiores saurópodes escavados em Portugal, o Dinheirosaurus lourinhanensis.
Hoje, estas praias são uma protecção essencial contra as alterações climáticas e a subida do nível do mar. É normal vermos grandes blocos de rocha soltos junto das arribas ou mesmo no areal, mostrando que as arribas estão vivas e o processo de erosão não pára.
Seguindo a sinalética, chegamos rapidamente à praia de Porto Novo, que acolhe a foz do rio Alcabrichel. Esta praia onde desembarcaram as tropas inglesas para combaterem ao lado das forças portuguesas em 1808 oferece um extenso areal, protegido por um cordão dunar de referência, mas também por um conjunto de rochas jurássicas. Bem perto dali encontramos as ruínas do convento de Penafirme, destruído pelo tsunami, consequência do terramoto de 1755. Continuamos para sul, com escala obrigatória na praia de Santa Cruz.
No balanço de mais um lugar icónico, avançamos no sentido da praia Azul. Chegados a mais um lugar com uma paisagem avassaladora, sentimos a brisa do mar e uma vontade de explorar as rochas que na maré baixa deixam ver uma das maiores colecções ao ar livre de fósseis de Isognomon lusitanicus. Estes bivalves são a prova viva de mares pouco profundos que ali existiram há mais de 150 milhões.
Dali avistamos a foz do rio Sizandro e um cordão dunar que protege uma várzea dominada pelos campos agrícolas. Na foz do rio Sizandro, somos confrontados com uma biodiversidade que caracteriza um ecossistema preservado onde a presença humana tem sabido conviver com a fauna e flora residentes no local.
Voltamos a subir alguns patamares e continuamos o nosso percurso para sul. Cruzamos a praia de Cambelas, cenário de notáveis achados paleontológicos, onde nem sempre encontramos o areal necessário para estender a toalha numa praia com muitas poças e pequenos refúgios marinhos.
Sem perder tempo, chegamos à praia da Assenta onde termina esta viagem de cerca de 70km. Conhecida por pescadores como um portinho natural em épocas de mar calmo. A Assenta é hoje lugar obrigatório para ouvir as histórias antigas e conhecer de perto as tradições da pesca artesanal e do transporte e venda de peixe na cidade de Torres Vedras. Iluminada pelo seu farol, que se faz notar na paisagem, a praia da Assenta é protegida pelos molhes naturais a norte e a sul, mostrando aos pescadores que o mar se enfrenta sempre de frente e sem medo.
Chegados ao fim da nossa viagem, trazemos a mochila cheia de recordações e tradições, mas certos de que estes 70km mostram a singularidade do património natural e cultural de referência nacional e internacional que o Oeste tem para oferecer.
Este é o cartão-de-visita de uma região que não podemos deixar de visitar.
Nota: Adaptação dum texto de Miguel Reis Silva com acrescento de fotos por V. Oliveira









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